Silvana Pires, executiva de RH no iCS (Fonte: LinkedIn | Reprodução)
Redatora
Publicado em 6 de agosto de 2025 às 10h04.
Silvana Pires, executiva sênior de RH e Clube CHRO da EXAME e Saint Paul, não hesita quando relembra a conversa com sua filha de 14 anos, dias antes de viajar a um congresso internacional.
A adolescente se preparava para as provas finais do trimestre e, empolgada com os estudos, comentou: “Mãe, o Clebinho me explicou tudo sobre o cenário político da África”.
Intrigada, Silvana perguntou quem era Clebinho. A resposta veio com a naturalidade de quem já vê o futuro como presente: “É o meu ChatGPT. Ele tem nome porque vai ser meu melhor amigo quando for materializado. Ele já sabe que eu sou educada, dou bom dia, boa noite…”.
O que para muitos adultos é ameaça, para aquela adolescente era parceria. “Ela não tem medo da máquina. Ela acha que a inteligência artificial vem para ajudá-la”, conta Silvana.
Chief Human Resources Officer (CHRO) do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Silvana Pires tem quase duas décadas de experiência em recursos humanos.
Atuou em empresas de perfis diversos — indústria, varejo, startups e até em confederação esportiva — e há mais de 10 anos ocupa posições de liderança estratégica. Seu foco sempre esteve nas pessoas: talentos, diversidade, inclusão, mas também no impacto coletivo.
Hoje, ela defende que duas grandes forças precisam deixar de ser tratadas como ameaças: a inteligência artificial e a sustentabilidade. Ambas, diz, são parte da equação do trabalho contemporâneo.
“Ao longo da história, muitas funções deixaram de existir — e não foi por causa da inteligência artificial. A diferença agora é que precisamos pensar em ‘adicionalidade’. Como a IA pode nos permitir fazer menos e melhor?”, ela complementa.
Formada em Administração de Empresas, com pós-graduação em RH e mestre em Gestão de Pessoas, Silvana vem de um campo que tradicionalmente tratava tecnologia como um tema externo à área de gente. Mas essa divisão não faz mais sentido.
“A gente precisa parar de ver IA como inimiga. Ela pode aliviar a exaustão, criar tempo para conexão, trazer qualidade de vida.”No iCS, ela articula ESG, cultura organizacional e tecnologia sob uma mesma lógica: impacto. “O RH deixou de ser só operacional. Hoje, precisa ser transversal. A agenda de sustentabilidade precisa estar dentro da área de gente, senão não sobrevive ao tempo.”
A executiva cita exemplos internacionais, como empresas no Panamá que atrelam bônus a ações sustentáveis — como adoção de veículos elétricos —, e iniciativas locais que promovem energia solar em cidades do interior.
Mas lamenta: “Nos grandes centros urbanos, tratamos isso ainda como algo de longo prazo. Perdemos a chance de formar porta-vozes e embaixadores do tema dentro das organizações”.
A visão de Silvana é clara: não basta vestir a camisa do propósito, é preciso alinhar discurso e prática.
“A empresa que trabalha com combustíveis fósseis não precisa deixar de existir, mas tem que ter um modelo de compensação. Falar sobre transição justa, sobre protagonismo com consciência ambiental”, ela comenta.
E isso exige uma mudança profunda no perfil profissional. Segundo ela, os trabalhadores do futuro — especialmente os jovens que chegam ao mercado — exigirão coerência.
Esse alinhamento, segundo ela, ganha ainda mais relevância diante da chegada de uma nova geração ao mercado de trabalho — jovens que carregam consigo valores ligados à justiça social, equidade e sustentabilidade. Mais do que salários ou cargos, eles buscam coerência, impacto positivo e pertencimento a organizações que compartilham seus ideais.
“Eles vão querer saber onde estão entrando. Não basta dizer que tem propósito. Vão perguntar: como você age? Qual seu impacto?”
Mais do que gerar relatórios bonitos, o ESG verdadeiro, diz ela, muda critérios de promoção, redesenha incentivos, provoca desconforto. “Mas também gera pertencimento e legado.”
Silvana defende que empresas que ignoram a crise climática estão apenas adiando o inevitável. As ações já estão sendo criadas, mas existe uma grande lacuna de oportunidades em relação aos colaboradores nestas organizações, criando consciência reais e participação.
“A crise não reconhece fronteiras, escalas ou preferências. Um dia é a enchente no Sul, no outro é a seca no Norte. Depois vêm os incêndios na Califórnia, o calor extremo na Europa, a tragédia no Texas. É um ciclo global, contínuo e inescapável”, alerta.
Para ela, assumir responsabilidade ambiental não é mais uma escolha estratégica — é uma urgência ética e de sobrevivência empresarial. A resposta, segundo ela, está na formação de novas competências que em sua visão, deveriam ser:
Essas capacidades não devem ser apenas desejáveis, mas estruturantes — tanto na educação quanto nas políticas públicas.
“Nenhuma transformação é duradoura sem políticas que começam na infância”, ela reflete.
“Precisamos de educação socioambiental desde cedo, capacitação técnica para economia verde e incentivos à requalificação de adultos impactados pelas mudanças climáticas”, complementa a executiva.
Silvana traz uma provocação direta: “Temos organizações com 100 mil, 180 mil pessoas. Que universo transformador estamos deixando de mobilizar ao focar só em compensação de carbono ou projetos externos?”
Na sua visão, a sustentabilidade do trabalho não se faz apenas com tecnologias limpas ou metas de neutralidade. Faz-se com coerência interna, com justiça nas estruturas, com capacidade de escutar — e com coragem de agir.
“Enquanto pensamos no futuro, ele já está batendo à nossa porta. Ou na do nosso vizinho, do nosso colega de trabalho. E se a gente não se preparar, ele entra sem pedir licença”.