Carreira

Ela saiu do sertão, venceu o burnout e criou uma empresa que fatura em dólar com turismo de impacto

Janaína Araújo abriu uma agência de turismo que colocou Curaçao e Marrocos no radar dos brasileiros. O próximo passo é dar um novo destino para mulheres vítima de violência doméstica

Janaína Araújo, fundadora da Lékè RP: “O sucesso da empresa não está só no caixa, mas na capacidade de gerar oportunidade e impacto na sociedade” (CASA 4 ESTÚDIO/AIVAN MOURA/Divulgação)

Janaína Araújo, fundadora da Lékè RP: “O sucesso da empresa não está só no caixa, mas na capacidade de gerar oportunidade e impacto na sociedade” (CASA 4 ESTÚDIO/AIVAN MOURA/Divulgação)

Publicado em 5 de abril de 2025 às 12h48.

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Na infância, Janaína Araújo já parecia desafiar as probabilidades. No sertão da Paraíba, em meio à aridez de Caicó, onde cresceu, ela aprendeu cedo que a vida exige coragem — e movimento. Ainda menina, resolveu criar um programa de rádio em uma emissora AM da cidade. "Eu tinha 12 anos e fui falar com o diretor da rádio. Meu pai achava que era ilusão, mas era só o começo", lembra.

Hoje, aos 49 anos, Janaína é fundadora da Lékè RP, empresa que atua como uma Destination Management Company (DMC) — ou empresa de gerenciamento de destinos. Na prática, isso significa que a companhia representa destinos turísticos e redes hoteleiras no Brasil, oferecendo suporte estratégico para a promoção internacional desses locais. No caso da empresa de Janaína, o desafio foi colocar a ilha Curaçao no radar turístico do brasileiro, assim como Marrocos.

Mas como a própria executiva costuma dizer, sua carreira nunca foi só sobre vender destinos — foi sobre transformar vidas, começando pela própria.

O primeiro movimento: a mudança para São Paulo

Filha de caminhoneiro e de uma dona de casa, aos 15 anos Janaína acompanhou a sua mãe na mudança para São Paulo, indo morar no subúrbio de Franco da Rocha. “Foi um começo difícil. Eu trabalhava no Bom Retiro com 16 anos, mas sempre olhei o copo meio cheio. A comunidade me ensinou sobre força coletiva e criatividade.”

A virada profissional veio após anos como funcionária em grandes empresas. Trabalhou dez anos na TAM (hoje conhecida como Latam), onde foi de recepcionista ao cargo de assessora do fundador Rolim Amaro. “Ele dizia: ‘Ele sempre dizia: Invista no seu desenvolvimento pessoal como um patrimônio que ninguém pode tirar’”, lembra Janaína que diz que aprendeu muito sobre liderança com esse contato direto com o fundador da TAM.

Outra grande lição foi sobre um líder ensinar o funcionário a ter pertencimento de dono. “Ele treinava a gente para vestir a camisa da empresa, a gente se sentia dono da TAM", diz. "Liderança exige criar processos, valores e um senso claro de missão. Pessoas motivadas e bem treinadas geram resultados duradouros”.

Depois da companhia aérea, Janaína assumiu a área de viagens do Grupo Camargo Corrêa, onde trabalhou por 8 anos e assumiu a América Latina e depois o bloco África. Foi neste período que acabou conhecendo Curaçao, uma ilha do Caribe que fica ao norte da costa da Venezuela. A oportunidade de conhecer a ilha aconteceu na época em que a Camargo Correa estava envolvida com a construção do aeroporto de Curaçao.

“Me apaixonei pela ilha e pela energia do lugar. Voltei para São Paulo com um pensamento diferente”.

Burnout: o estímulo para abrir a própria empresa

Aos 36 anos, após um burnout, Janaína pediu demissão para empreender. Criou uma empresa de eventos corporativos, mas a ilha do Caribe não saia da sua cabeça. Foi quando decidiu mudar a rota. Fechou a empresa de eventos e abriu uma de turismo, e assumi a representação oficial de Curaçao no Brasil.

Começava ali a história da Lékè RP — "Lékè", palavra de origem africana que significa "a que está no topo", em referência à força feminina.

Seu desafio? Vender uma ilha praticamente desconhecida para os brasileiros. "Tivemos que mudar o mindset dos hoteleiros, acostumados ao público europeu. O brasileiro quer ser celebrado, quer excelência. E hoje, com muito trabalho, todos os voos para Curaçao estão lotados", afirma.

Janaína Araújo em Curaçao, ilha do Caribe: “Me apaixonei pela ilha e pela energia do lugar, inclusive para trabalhar." (Janaína Araújo /Divulgação)

Pandemia: quando a empresa quase fechou as portas

A pandemia quase encerrou essa trajetória: Janaína perdeu contratos, acumulou dívidas e viu sua receita cair de US$ 80 mil para US$ 3 mil por mês. "Fiquei doente. Mas assisti a uma matéria da comunidade da Rocinha e pensei: para de se vitimizar, você ainda tem casa, comida e saúde. Levanta."

Foi no meio deste caos que ela criou o “Instituto Leque”, que ofereceu treinamentos gratuitos de empreendedorismo a mil mulheres durante o isolamento. "Era minha forma de me manter de pé ajudando outras mulheres. O coletivo me salvou."

Além do autoconhecimento e do apoio coletivo, Janaína conseguiu sair da crise provocada pela pandemia com um planejamento financeiro rigoroso.

Ela passou a operar com planejamento semestral de fluxo de caixa, com foco em:

  • Provisionamento rigoroso (considerando até 3 meses de atraso nos pagamentos)
  • Zero uso de crédito bancário
  • Manteve a equipe de 7 funcionários (enxuta e altamente capacitada)
  • E teve controle de KPIs: mantendo ações que davam resultado

“Hoje, se tudo corre como planejado, eu não preciso usar dinheiro de banco. E tenho capital de giro garantido por três meses.”

Hoje, a Leque fatura cerca de US$ 60 mil por mês, e Janaína projeta um crescimento de 30% para o próximo ano.

Marrocos: um novo destino, um novo movimento

Após a crise, um novo destino internacional apareceu para a empresária nordestina: Marrocos. A boa relação com o Grupo Xaluca, empresa familiar com mais de 30 anos de experiência no setor de hospitalidade no sul do Marrocos, abriu um novo caminho.

“Era um desafio muito diferente de Curaçao, mas vi uma grande oportunidade. Brasileiros que já conhecem a Europa e Estados Unidos, buscam por lugares diferentes, foi assim com Curaçao, e não será diferente com a cultura marroquina”, afirma.

Foi então que em 2023 Janaína decidiu organiza o Desert Woman Summit em Marrocos, evento que leva mulheres líderes e empresárias para promover expansão de consciência, autoconhecimento e impacto social.

Um projeto desenhado com Luiza Helena Trajano

Uma das palestrantes do Desert Woman Summit em 2024 foi Luiza Helena Trajano. O evento abordou temas como empreendedorismo, políticas públicas, tecnologia, ESG e empoderamento econômico feminino. Foi neste evento que um projeto maior para mulheres foi desenhado com Janaína e Trajano: ajudar mulheres em situação de violência doméstica.

Em parceria com a Fiesp e o governo de Curaçao, a Lékè RP vai levar 60 mulheres brasileiras em situação de violência para trabalhar na ilha caribenha por seis meses, com salário, hospedagem, alimentação e suporte emocional.

Antes da viagem, as participantes passarão por uma capacitação em redes hoteleiras em São Paulo, com o objetivo de atuar em hotéis internacionais.

“Quando elas voltarem, viram outras. Vão voltar com profissão, currículo internacional e autoestima renovada.”

O projeto ainda está em fase final de estruturação, com contrato assinado e início previsto para o segundo semestre deste ano.

A escolha das 60 mulheres brasileiras que irão para Curaçao será feita com apoio de instituições especializadas em acolhimento a vítimas de violência. A Lékè RP está em contato com redes de apoio e organizações sociais ligadas ao Grupo Mulheres do Brasil, à FIESP e a entidades parceiras que já atuam diretamente com esse público vulnerável.

“Vamos priorizar mulheres que estejam prontas para recomeçar, que tenham condições de deixar os filhos temporariamente com familiares e que estejam emocionalmente preparadas para essa nova etapa”, afirma Janaína.

O que é uma empresa de sucesso?

Para a nordestina que foi morar em São Paulo e está ganhando espaço em diferentes lugares do mundo, o sucesso de uma empresa não se mede apenas pelo faturamento, embora sua empresa já esteja recuperando o patamar pré-pandemia – para ela, é preciso ter um propósito. “O empresário precisa sair da operação, pensar estrategicamente e ter propósito. O sucesso da empresa não está só no caixa, mas na capacidade de gerar oportunidade e impacto na sociedade.”

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