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Para onde vai a manga? Afetado pelo tarifaço, setor busca negociações nos EUA e novos mercados

Principal fruta afetada pelo tarifaço de Trump enfrenta o desafio da validade e das alternativas de mercado

Mangas: o setor enfrenta o desafio da validade para tentar direcionar a produção que iria para os Estados Unidos (Marcio Silva/Getty Images)

Mangas: o setor enfrenta o desafio da validade para tentar direcionar a produção que iria para os Estados Unidos (Marcio Silva/Getty Images)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 28 de agosto de 2025 às 06h00.

“Esse tarifaço é uma pancada grande na fruticultura, porque mexemos com um produto perecível.” É assim que Guilherme Coelho, presidente da Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frutas (Abrafrutas) define o impacto no Brasil do tarifaço dos Estados Unidos.

As tarifas americanas afetam sobretudo a manga, principal fruta in natura exportada para os EUA. O Brasil representa 5% das compras americanas do produto. Em números: 45,8 milhões de dólares e 36.000 toneladas de manga estão sem destino definido.

A exportação da manga para os americanos representa 13% da produção do Brasil. O principal atrativo do mercado dos Estados Unidos é o preço, superior ao da Europa. Ela é a única fruta com a chamada “safra americana”, com uma janela de exportação de 90 dias. Essa safra vai de agosto a outubro, aproveitando a entressafra do México. Os americanos preferem a Tommy, variedade pouco vendida para os europeus. Com isso, o momento é de negociação.

“Os exportadores estão negociando com os importadores e perguntando como vão dividir o prejuízo causado pela tarifa”, afirma Coelho. O cálculo dos produtores é que o preço da manga, antes vendida por 7 dólares, pode subir para 10 dólares.

“A grande dúvida é se o consumidor americano continuará comprando a esse preço ou se procurará produtos mais baratos”, diz o representante. A avaliação é que uma parte da manga seguirá para os Estados Unidos mais cara, mas o restante gera dúvidas.

Exportadores do Vale do São Francisco, no Nordeste, região responsável por 92 dos 100 contêineres de manga exportados, avaliam que o impacto no curto prazo é inevitável, dada a dificuldade de vender produtos perecíveis a outros mercados sem planejamento. “Os produtores podem retardar a colheita ou não realizá-la para reduzir prejuízos. O mais indicado já está sendo feito: negociar com os compradores, tentando reduzir o impacto no preço final”, diz José Farias, economista da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Além disso, o governo federal apresentou um pacote de socorro, com crédito e compras públicas.

Para Coelho, da Abrafrutas, as medidas são boas, mas não atendem os pequenos produtores, chamados de colonos, que fornecem manga para os grandes exportadores. “Se os grandes não comprarem a manga deles, eles terão de redirecioná-la para o mercado interno, o que pode abarrotar o mercado e reduzir o preço”, afirma.

A abertura de novos destinos é uma alternativa, diz o representante do setor, mas é um processo que exige tempo e amadurecimento. O destino da manga brasileira, portanto, é incerto. Sinal dos tempos.

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