No ESG Summit, especialistas apontam: “Se não houver ESG, não há empresa, seja no curto, seja no médio, seja no longo prazo” (Eduardo Frazão/Exame)
Repórter de ESG
Publicado em 28 de agosto de 2025 às 06h00.
O debate sobre sustentabilidade corporativa mudou de tom. Em um contexto em que 90 milhões de brasileiros ainda vivem sem saneamento e as enchentes do Rio Grande do Sul custaram quase 200 vidas, o ESG Summit 2025 da EXAME mostrou que o tema amadureceu, convertendo-se definitivamente em questão de sobrevivência empresarial.
Entre dados de impacto real e investimentos bilionários, dois encontros realizados em São Paulo e Belém — onde em novembro acontecerá a COP30 —, mostraram na prática como as companhias têm exercido cada vez mais um papel de ação, por compreenderem que quem não se adaptar simplesmente não terá empresa para administrar.
“Nenhum sistema de proteção estava preparado para o que nós enfrentamos [no Rio Grande do Sul]”, disse Gabriel Souza, vice-governador do estado. Foi a partir das tragédias dos últimos anos que a região desenvolveu o Plano Rio Grande, que prevê 14 bilhões de reais até 2027 para consolidar, entre outras infraestruturas, padrões de drenagem e realocação de cidades.
ESG: saneamento inadequado afeta saúde de milhões e demanda maior participação das corporações para solução (Eduardo Frazão/Exame)
Com o setor público sobrecarregado cresce a importância da atuação das corporações na redução de desigualdades. André Machado, coordenador de relações institucionais do Instituto Trata Brasil, lembrou os milhões de pessoas que ainda vivem sem saneamento adequado, com impacto na saúde e na higiene. Números que distanciam muito o Brasil da meta de universalização prevista para 2033, que institui que 99% dos brasileiros tenham acesso a água tratada, enquanto 90% passem a contar com coleta e tratamento adequado de esgoto.
A saúde também esteve em foco, com especial atenção à população do Pará, onde a EXAME realizou a primeira edição do ESG Summit Belém, em parceria com a Afya. A empresa, líder em formação médica, exemplificou como testemunhou e influenciou mudanças na região e em outras localidades onde atua, ao levar 33 faculdades de medicina para o interior dos territórios.
O impacto? Queda de 20% nas internações por doenças crônicas nas cidades atendidas. “Para cada real investido em uma cidade, 3,58 reais retornam à comunidade, seja em saúde, geração de renda, seja em fixação de profissionais”, contou Gustavo Meirelles, vice-presidente médico da companhia.
Para mostrar como a responsabilidade corporativa demanda engajar também toda a cadeia, a Ypê, companhia brasileira de produtos de limpeza e higiene, detalhou a ação que envolveu o plantio de 1,2 milhão de árvores, por meio de uma parceria com a ONG SOS Mata Atlântica, que ainda passou a monitorar 112 rios brasileiros. “À medida que estabelecemos critérios e indicadores para cada funcionário e fornecedor, estamos engajando-os na mesma proposta”, explicou o presidente Waldir Beira Junior.
Gabriel Souza, vice-governador do RS: “Nenhum sistema estava preparado para o que enfrentamos” (Eduardo Frazão/Exame)
O novo paradigma pode ser ilustrado por dados do movimento Empresas B. Todas as 340 companhias certificadas como B no país assumiram e exercem compromissos legais com sustentabilidade.
Um dos exemplos, a gigante dos cosméticos Natura já captou 1,3 bilhão de reais via instrumentos sustentáveis, enquanto a multinacional de alimentos Danone anunciou a operação de sua primeira planta sem resíduos, reaproveitando água e usando energia solar no Brasil.
Como resumiu Sonia Consiglio, especialista em sustentabilidade, o momento é de saber quem de fato entendeu a conexão entre clima e economia. “Se não houver ESG, não há empresa, seja no curto, seja no médio, seja no longo prazo”, sentenciou a especialista.