Demogorgon: conheça a história bizarra do vilão de Stranger Things (Divulgação/Netflix)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 30 de novembro de 2025 às 06h00.
Quando Mike, Dustin e Lucas batizaram o monstro de Stranger Things de "Demogorgon", eles não imaginavam que estavam invocando uma criatura que provavelmente nunca teria existido. O nome que aterroriza Hawkins tem uma origem ainda mais estranha que portais para o Mundo Invertido: um possível erro de copista medieval.
Por volta do ano 350 d.C., um estudioso chamado Lactâncio Plácido escreveu um comentário sobre a "Tebaida" de Estácio, um poema mitológico. Em um trecho sobre "o ser supremo do mundo tríplice", ele menciona pela primeira vez o "Demogorgon", descrito como um deus supremo cujo nome não é permitido conhecer.
O problema é que nenhum escritor grego ou romano anterior jamais havia mencionado esse deus. A teoria mais aceita pelos acadêmicos é que Demogorgon nasceu de um erro de transcrição da palavra grega "dēmiourgón" (demiurgo), o criador mencionado por Platão.
Foi o renascentista Giovanni Boccaccio quem consolidou o mito. Em sua "Genealogia Deorum Gentilium" (1360-1375), ele apresenta Demogorgon como o ancestral de todos os deuses pagãos, baseado no que ele achava ser um antigo poema grego perdido. A obra foi um bestseller da época, reimpressa dezenas de vezes, e cimentou Demogorgon como figura "real" da mitologia.
A partir do Renascimento, Demogorgon vira presença constante na literatura ocidental. Christopher Marlowe o invoca em "Doctor Faustus" (1590). John Milton o menciona em "Paraíso Perdido" (1667) entre os espíritos das trevas. Percy Shelley cria a versão mais radical em "Prometheus Unbound" (1820), transformando-o em uma força revolucionária que derruba tiranos.
Mas foi em 1976 que Demogorgon ganhou a forma que conhecemos hoje. Gary Gygax e Brian Blume criaram o suplemento "Eldritch Wizardry" para Dungeons & Dragons (D&D), um jogo de mesa com interpretação de papéis, conhecido como RPG. É esse jogo que os meninos jogam na primeira temporada de Stranger Things.
O Demogorgon era a estrela, com 6 metros de altura, corpo reptiliano, tentáculos no lugar dos braços e duas cabeças de babuíno. Cada cabeça tinha personalidade própria e odeia a outra, conspirando constantemente para dominar o corpo. Em 1977, ele recebe o título de "Príncipe dos Demônios."
A criatura causou polêmica imediata. Nos anos 1980, pais e grupos religiosos atacaram D&D, acusando o jogo de promover satanismo. O pânico foi tão grande que em 1989 a editora TSR removeu todas as menções a demônios. Por cinco décadas, o Demogorgon evoluiu através das edições de D&D e se consolidou como um dos maiores vilões da história dos RPGs.
Em 2016, os irmãos Duffer apostaram que uma geração inteira reconheceria a referência. No primeiro episódio de Stranger Things, Mike é o Mestre de D&D e as crianças enfrentam um Demogorgon segundos antes de Will Byers desaparecer de verdade. Quando encontram uma criatura no "Mundo Invertido", batizá-la de Demogorgon era óbvio.
A versão da Netflix é bem diferente do original de D&D: uma criatura humanoide com boca em forma de pétalas cheia de dentes, sem as duas cabeças de babuíno ou tentáculos. Mas mantém o essencial, um predador interdimensional, força brutal e capacidade de espalhar terror e caos.
O Demogorgon, que sobreviveu 1.600 anos de erros de copista, literatura clássica, polêmicas religiosas e cinco edições de D&D, finalmente conquistou o mainstream.