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Tom Gruber, criador da Siri: 'Usar IA só para cortar custos é um desperdício'

Um dos criadores do assistente pessoal da Apple, e amigo de Steve Jobs, Gruber defendeu sua visão de uma IA humanista no palco do Startup Summit, em Florianópolis

Tom Gruber: "O objetivo da IA deve ser melhorar a vida das pessoas, não substituí-las" (Startup Summit/Divulgação)

Tom Gruber: "O objetivo da IA deve ser melhorar a vida das pessoas, não substituí-las" (Startup Summit/Divulgação)

Leo Branco
Leo Branco

Editor de Negócios e Carreira

Publicado em 30 de agosto de 2025 às 07h11.

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Um dos fundadores do assistente pessoal Siri e pioneiro da inteligência artificial, o americano Tom Gruber está otimista com a solução para um dos principais problemas atuais da IA: as alucinações.

Tom Gruber apresentou uma reflexão sobre os desafios da IA no fechamento do Startup Summit 2025, evento de empreendedorismo realizado esta semana em Florianópolis. 

Esse fenômeno ocorre quando a IA gera respostas imprecisas ou inventadas, algo que, segundo Gruber, ainda é um obstáculo significativo para o avanço da tecnologia.

A solução, segundo Gruber, passa pela construção de novas arquiteturas de IA que consigam aprender não apenas padrões, mas também raciocínio e compreensão.

“A IA precisa ser capaz de distinguir entre verdade e mentira, algo fundamental para sua credibilidade. Ela precisa ser treinada para lidar com fatos reais, não apenas memórias dos dados com os quais foi alimentada”, diz.

Gruber, cientista da computação, inventor e designer de produto, é amplamente reconhecido por sua contribuição ao desenvolvimento da Siri, o assistente virtual integrado aos dispositivos da Apple. 

Nascido em 1959, ele tem uma formação sólida em psicologia e ciência da computação, com mestrado e doutorado pela University of Massachusetts, e sua pesquisa inicial focou em IA e sistemas assistivos para pessoas com deficiência. 

Seu trabalho acadêmico na Universidade de Stanford, especialmente em ontologias e web semântica, foi fundamental para a evolução da interoperabilidade entre sistemas inteligentes.

Em 2007, ao lado de Dag Kittlaus e Adam Cheyer, fundou a Siri Inc., com o objetivo de criar um assistente pessoal inteligente.

A empresa foi adquirida pela Apple em 2010, onde Gruber atuou como CTO e chefe de design, sendo responsável pela integração do sistema aos produtos da Apple, como iPhones, iPads, Macs e Apple Watch. 

Gruber permaneceu na Apple até 2018, contribuindo significativamente para o desenvolvimento da empresa no campo de IA e assistentes pessoais.

Em entrevista exclusiva à EXAME, pouco antes de ir ao palco do Startup Summit, Gruber ressaltou a importância de construir uma IA ética e responsável. Para ele, a IA deve ser projetada para aumentar as capacidades humanas e não para substituí-las, defendendo a ideia de “IA humanista”.

“Devemos usar a IA para resolver problemas que antes eram impossíveis de resolver, como a saúde mental e a educação. A IA pode ajudar um bilhão de pessoas que precisam de cuidados com a saúde mental, e a tecnologia pode transformar a educação ao ajudar bilhões a aprender”, diz Gruber. 

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Suas palestras abordam principalmente o conceito de IA humanista. O que exatamente distingue esse tipo de IA das outras abordagens existentes atualmente?

A inteligência artificial (IA) é um tema que permeia todas as esferas da vida contemporânea, não se limitando apenas à tecnologia, mas abrangendo a sociedade, o governo e outras áreas.

Para contextualizar a ascensão da IA humanista, é importante entender sua evolução, desde a World Wide Web, que foi crucial para a IA que temos hoje, até desenvolvimentos como a Siri e o aprendizado profundo.

Se temos uma tecnologia tão poderosa, capaz de gerar um bem imenso, é imperativo que a usemos com sabedoria. Simplesmente focar no corte de custos ou demissões seria um desperdício e, de certa forma, imoral.

O correto é direcionar a IA para a resolução de problemas complexos que antes eram insolúveis. Por exemplo, a saúde mental: a Organização Mundial da Saúde estima que um bilhão de pessoas necessitam urgentemente de cuidados, e a IA pode preencher essa lacuna, dada a insuficiência de psicólogos.

Na educação, com um ou dois bilhões de pessoas buscando conhecimento, a IA pode atuar como tutores individuais, nivelando o campo de jogo globalmente. A IA pessoal, exemplificada pela Siri – da qual fui cofundador e chefe de tecnologia e design –, nasceu da necessidade de tornar a IA na nuvem acessível a todos.

Como foi o processo de desenvolvimento dessa ideia? Não é algo que se pensa todos os dias, "Vou criar um assistente pessoal com tecnologia". Como foi o brainstorming?

Essa é uma excelente pergunta. Desenvolvo IA há cerca de 40 anos, com meu primeiro programa datado de 1983. A ideia de construir um sistema de inteligência não foi nossa. Em 1987, a Apple lançou um vídeo visionário que antecipava conceitos como a Siri, a World Wide Web, ferramentas de colaboração como o Slack e plataformas de vídeo como o Zoom, muito antes de existirem. Essas ideias estavam no ar no Vale do Silício.

No final de 2007 e início de 2008, percebemos que era o momento certo. Reunimo-nos em três: um especialista em computação móvel com um iPhone 1 em mãos, que previu a revolução móvel; outro, um excelente programador de serviços de back-end; e eu, focado na experiência do usuário.

Entendemos que a computação em nuvem estava emergindo, e a IA estava quase madura. Embora imperfeita, sabíamos que com a contribuição de muitos usuários, poderíamos aprimorá-la. A equipe certa também foi crucial. Apenas 24 pessoas construíram a Siri em apenas dois anos.

Qual foi o principal desafio que você enfrentou na época?

O maior desafio foi a tecnologia em si, uma combinação complexa de diversas tecnologias. Foi como construir o primeiro avião comercial, onde algumas partes, como os motores a jato (no nosso caso, o reconhecimento de fala), foram licenciadas. Mas foi preciso inventar o "combustível" e a "aviação", que para nós foram a compreensão da linguagem natural, a orquestração de serviços e outras inovações.

Reunimos todas essas tecnologias diversas, como os "AirBots", e conseguimos transformá-las em um produto. O sucesso na App Store foi imediato, resultado de testes extensivos com usuários. Seis semanas depois do lançamento, Steve Jobs nos ligou.

Como foi essa ligação?

No início, não acreditávamos que era ele. Ele ligava repetidamente para nosso CEO em seu telefone pessoal, dizendo: "Sou o Steve". Finalmente, percebemos que era ele. Ele era um negociador hábil e, após longas conversas, chegamos a um acordo.E, no fim das contas, eu fiquei oito anos. A maioria dos outros não ficou tanto tempo. Steve foi muito bom conosco. Ele nos convidou para sua casa.

Como foi trabalhar com ele?

Ele foi excelente, mas estava no último ano de sua vida, então não presenciamos os momentos de raiva pelos quais ele era conhecido. Há opiniões diversas sobre trabalhar com ele, mas para nós, a Siri foi um de seus últimos projetos. Ele realmente queria IA em seus produtos e nos deu um apoio incondicional.

Ele instruiu a empresa, uma empresa de um trilhão de dólares, a nos ajudar a ter sucesso, o que mobilizou milhares de engenheiros para garantir nossa integração no sistema. Isso não teria sido possível sem uma liderança como a dele.

O que você acha do ChatGPT? Como você vê esse boom de negócios com IA?

Achei o ChatGPT maravilhoso. Ele realmente concretizou a visão que tivemos com a Siri, de criar uma interface conversacional com a IA. A Siri facilitava tarefas no telefone, como agendar compromissos e fazer ligações. O ChatGPT, por sua vez, é excelente em responder a perguntas e fornecer informações. A IA está em um ponto onde pode aprender e se expandir rapidamente, o que considero fantástico.

Você está envolvido com outras empresas de IA. O que falta nos LLMs (Modelos de Linguagem de Grande Escala)?

Sim, sou conselheiro de várias startups de IA. A tecnologia está evoluindo rapidamente, e muitas novas empresas estão surgindo para aproveitar essa tendência. Aconselho pequenas startups, ajudando-as a maximizar o potencial dessa nova tecnologia.

Os LLMs são ótimos na geração de texto e imagens, mas ainda enfrentam problemas fundamentais, como a "alucinação", onde a IA gera respostas falsas. A solução técnica para isso provavelmente residirá em uma nova arquitetura, onde a IA aprenderá não apenas padrões, mas também o significado por trás dos dados. Para que a IA realmente compreenda e raciocine, ela precisa distinguir melhor entre verdade e mentira, o que é essencial para evitar essas falhas.

Como você vê o futuro da IA? Conseguiremos superar esses problemas?

Acredito que sim. Há um investimento massivo em IA e muitas pessoas trabalhando para resolver esses desafios. No entanto, não consigo prever quando as "alucinações" desaparecerão. Alguns preveem que a inteligência artificial geral (AGI) está a três anos de distância, outros dizem 30 anos. A verdade é que estamos apenas começando a entender como isso evoluirá.

Um dos críticos mais vocais à IA, o escritor israelense Yuval Harari diz que a IA pode afetar a forma como as sociedades funcionam, especialmente em regimes autocráticos. É um outro problema? 

Concordo com Harari. A IA tem o poder de impactar o funcionamento das sociedades e pode ser perigosa se cair em mãos erradas. Por exemplo, um autocrata como Stalin ou Xi Jinping provavelmente usaria a IA para manipulação e engano. Precisamos ser cautelosos. A IA deve ser usada com responsabilidade, e é aí que a regulamentação se torna crucial.

Qual é a solução para evitar esse cenário crítico?

A solução é reconhecer a existência desses riscos e agir para mitigá-los. Precisamos criar IAs otimizadas para a verdade e a integridade. Além disso, governos esclarecidos devem reformular as leis para impedir o uso abusivo da IA. Devemos estabelecer regulamentações mínimas para evitar o uso indevido da IA, como a criação de armas ou bots políticos.

Algum país está lidando bem com a regulamentação da IA?

A Europa é a única região que está fazendo progresso significativo, embora ainda esteja em estágios iniciais. Muitos no Vale do Silício acreditam que a regulamentação desaceleraria a IA, mas isso não é verdade. Regular não significa retardar o progresso, mas sim garantir o uso ético e responsável da tecnologia.

Como a regulamentação se relaciona com a IA humanista que o Sr. defende? 

Acredito que a IA deve complementar os seres humanos, não substituí-los. Embora a IA possa salvar vidas em aplicações como carros autônomos, há áreas, como a música, onde não precisa automatizar tudo.

Defendo que a IA deve fornecer ferramentas para que as pessoas continuem a criar e a contribuir com seu talento. O objetivo da IA deve ser melhorar a vida das pessoas, não substituí-las.

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