Negócios

Novos contratos entre empresas e funcionários dispensam comprometimentos de longo prazo

O americano Peter Cappelli, professor e diretor do centro de estudos de recursos humanos de Wharton, da Universidade da Pennsylvania, é autor do livro The New Deal at Work. A seguir, trechos de sua entrevista a EXAME: EXAME - O que o senhor chama de novo contrato de relacionamento entre funcionários e empresas ? Peter […]

EXAME.com (EXAME.com)

EXAME.com (EXAME.com)

DR

Da Redação

Publicado em 14 de outubro de 2010 às 13h16.

O americano Peter Cappelli, professor e diretor do centro de estudos de recursos humanos de Wharton, da Universidade da Pennsylvania, é autor do livro The New Deal at Work. A seguir, trechos de sua entrevista a EXAME:

EXAME - O que o senhor chama de novo contrato de relacionamento entre funcionários e empresas ?

Peter Capelli - O novo contrato representa uma quebra de comprometimentos de longo prazo e relacionamentos estáveis. Hoje, os dois lados têm de lidar com mais incertezas. Os funcionários não têm mais a segurança de que poderão seguir carreira numa única empresa e as empresas não podem ter certeza de que vão manter os funcionários-chave para o sucesso da companhia. Esse modelo de relacionamento emergiu após a implementação de novas práticas de gestão movidas por um ambiente de mercado em mudanças. Há alguns anos, as pressões de mercado para que as empresas melhorassem o retorno dos acionistas no curto prazo aumentou. Algumas das práticas advindas dessas pressões são downsizing, outsourcing e a onda de fusões e aquisições. Se o modelo tradicional de relacionamento era como um casamento, o novo modelo de relacionamentos é como uma série de divórcios e novos casamentos, regulada pelas variações do humor do mercado. Quando a economia está fraca, os funcionários ficam em desvantagem porque as companhias não podem garantir que irão manter seus funcionários mesmo em tempos de crise. Quando a economia está forte, os empregadores é que ficam em desvantagem porque os funcionários também não estão mais dispostos a ficar numa empresa se aparecer uma outra oportunidade melhor.

EXAME - No novo acordo, o que as empresas passaram a oferecer e cobrar dos funcionários?

Capelli - As empresas hoje podem oferecer oportunidade de carreira e aprendizado, mas não segurança. Mas mesmo as oportunidades que elas oferecem hoje são diferentes das que oferecia no passado. A possibilidade de uma promoção sempre foi um importante incentivo para as pessoas agirem no interesse de seus empregadores. Mas as organizações horizontais e a redução da segurança no trabalho diminuíram dramaticamente a probabilidade das promoções servirem como uma ferramenta de incentivo. O que elas podem cobrar? Elas podem esperar comprometimento pelo trabalho, mas não pela companhia. As empresas podem exigir um bom trabalho, mas não lealdade.

EXAME - E os funcionários? O que eles passaram a oferecer e a cobrar?

Capelli - Eles podem se dedicar aos projetos que são dedicados a eles. E o que eles podem esperar? Podem pedir por oportunidades de desenvolver as habilidades que os tornem empregáveis em outro lugar.

EXAME - O senhor diz que saímos do modelo do funcionário feliz para o do funcionário com medo. O senhor vê empresas preocupadas com os possíveis efeitos colaterais dessa mudança?

Capelli - Não.

EXAME - Elas deveriam se preocupar com isso?

Capelli - Eles deveriam se preocupar com o seguinte: quando a economia melhorar, eles conseguirão manter essas pessoas?

EXAME - Hoje perder gente é mais crítico hoje do que no passado?

Capelli - Perder pessoas-chave é muito mais impactante do que no passado, porque a organização está mais e mais dependente de pessoas do que de sistemas e burocracias. Hoje é mais crucial prestar atenção em quem é importante e propor a essas pessoas valores que as manterão na empresa. Tornou-se importante também reter conhecimentos-chave e não só as pessoas, que podem deixar a sua empresa inesperadamente.

EXAME - E em que medida as ferramentas de retenção devem ser diferentes das do passado?

Capelli - Elas devem ser cada vez mais focadas para quem realmente faz a diferença. A idéia não é mais a de reter todo o mundo. O medo de perder o emprego mantém a performance alta e o turn over baixo em tempos de crise. Mas o declínio no ânimo, no moral dos funcionários indica que injustiça, insatisfação e estresse continuam a subir.

EXAME - Por que o modelo ainda parece funcionar, mesmo nos momentos em que a economia está mal e os funcionários levam a pior?

Capelli - Para os funcionários, não há muita escolha. Afinal em tempos de crise, todas empresas cortam. Eles podem estar infelizes, tenho certeza de que estão, mas não há muito o que possam fazer a respeito. A razão pela qual o modelo ainda funciona é que os funcionários não têm outras opções. Eles olham ao redor e vêem que não tem ninguém fazendo diferente.

EXAME - Há indícios de que o modelo esteja se esgotando?

Capelli - Não há indícios de que o modelo dirigido pelo mercado está acabando. Os funcionários se deram bem de 1999 a 2001 e agora os empregadores é que estão por cima. No longo prazo, a questão é: o ciclo vai acabar? Não se os empregadores não quiserem quebrar o ciclo, protegendo os funcionários mesmo quando o mercado está mal. A grande questão para as empresas é: as pessoas vão querer manter essa estabilidade ou vão pular para outro empregador que ofereça um acordo melhor?

Acompanhe tudo sobre:[]

Mais de Negócios

Venda da fatia da revista The Economist mobiliza ultrarricos

Como esta empresa de refeições corporativas dobrou receitas em 12 meses

Como uma marca de chocolate saiu do anonimato e passou a valer US$ 230 milhões

Começou sem capital e manteve a equipe intacta — hoje lidera uma gigante de US$ 17 bi