Negócios

Frigoríficos brasileiros podem ganhar bilhões com peste suína na China

Em Pequim, o vice-presidente Hamilton Mourão reforçou a necessidade de parcerias de "alto valor agregado" com o país asiático, como no setor de alimentos

Planta de suínos da BRF: empresa deve ganhar mercado com o problema na China (BRF/Divulgação)

Planta de suínos da BRF: empresa deve ganhar mercado com o problema na China (BRF/Divulgação)

JE

Juliana Estigarribia

Publicado em 24 de maio de 2019 às 07h00.

Última atualização em 24 de maio de 2019 às 15h25.

A peste suína africana tem sido um desastre para a China, com a morte em massa de animais, mas para os frigoríficos brasileiros pode ser uma mina de ouro. A necessidade do país asiático de substituir a carne de porco deve trazer demanda adicional para o Brasil -- desde que as relações políticas joguem a favor.

Em visita a Pequim nesta quinta-feira (23), o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, reforçou a necessidade de o Brasil ampliar a parceria comercial com a China, principalmente em produtos de maior valor agregado. "A China continuará a crescer acima da média mundial e em alimentos, por exemplo, deverá crescer de 11% a 13% até 2030", disse. "Iremos trabalhar para ampliar e diversificar as exportações brasileiras com maior valor agregado."

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou ainda nesta quinta-feira que a pasta enviará uma lista de 30 plantas de frigoríficos de bovinos, suínos, aves e uma de asininos para serem analisadas pelas autoridades chinesas para habilitação. Segundo ela, 6 já passaram por vistoria, mas ainda precisam ser habilitadas pela China.

As ações dos frigoríficos operavam entre as maiores altas da B3 nesta sexta-feira (24), por volta das 15h21: JBS (+4%), Marfrig (+3,8%) e BRF (+3,2%) tiveram os avanços mais significativos no setor.

A representatividade da China no setor de proteína animal brasileiro passou de 8% do total dos embarques, em 2005, para 26% neste ano, atingindo 46% em segmentos como suínos.

E não só a aniquilação de 30% a 40% do rebanho suíno chinês traz bons ventos para empresas como JBS, BRF, Marfrig e Minerva. “A China ainda tem um problema grave com os Estados Unidos. Os chineses estão pisando em um terreno pantanoso”, afirma a diretora executiva da consultoria especializada Agrifatto, Lygia Pimentel.

Para o economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Pedro Paulo Silveira, o desafio com o rebanho suíno na China veio para ficar. “O problema é tão grande que já está impactando os preços do milho e da soja, principais insumos para a criação de porcos.” Lygia acrescenta à guerra comercial fatores como câmbio e adversidades climáticas nos Estados Unidos, o que também contribui para a pressão sobre as cotações dessas commodities.

O sócio e co-gestor dos fundos da gestora Ujay Capital, Antônio Bueno, afirma que o choque de oferta de proteína com a gripe suína africana (ASF, na sigla em inglês) é muito significativo. Ele lembra que, em meados de 2006, a China enfrentou a doença da “orelha azul” e, à época, a quebra do rebanho foi de 8%, resultando em um aumento de preços dos porcos no país de 90% entre 2006 e 2008.

“A ASF é mais virulenta que a orelha azul e não tem cura. Em 2006, a criação de suínos na China era concentrada em pequenos produtores, cerca de 70% do total. Hoje, são as grandes unidades produtivas que têm mais de 65% da produção e, dessa forma, um animal contaminado com o vírus expõe um número muito maior de outros porcos, fazendo com que a doença se espalhe de forma ainda mais severa”, esclarece.

A estimativa da Agrifatto é que a liquidação do rebanho suíno chinês tenha atingido 35%. “A orelha azul acometeu aproximadamente meio milhão de cabeças. A ASF já levou a uma liquidação estimada de 155 milhões de cabeças.”

Neste cenário, analistas divergem sobre quais empresas brasileiras devem se beneficiar primeiro com a provável demanda adicional da China, mas o consenso é que os frigoríficos vão sair ganhando.

O analista da Mirae Asset Corretora, Pedro Galdi acredita que novas plantas brasileiras devem ser habilitadas em breve para exportar à China.  “Enquanto isso não acontece, dependendo do corte, os preços dos suínos já sobem quase 20% e, do frango, 40%”, pondera. “Os frigoríficos  estão exportando com bons preços”.

O preço da carne de frango sobe junto porque ela também é usada como substituta à carne suína chinesa. Sob essa ótica, até mesmo a Marfrig, focada em bovinos, pode se beneficiar.

Em relatório do banco de investimentos Itaú BBA, analistas afirmam que o recente surto de peste suína na China “irá impulsionar a geração de fluxo de caixa da JBS nos próximos trimestres, gerando potencial Ebitda de 21 bilhões de reais em 2020”.

O Bradesco BBI avalia em seu relatório a clientes que, no caso da Marfrig, devem ser incorporadas ao guidance “estimativas de maiores volumes e preços para proteínas devido à ASF, com alta de preços média de 10% para o ano”.

Um relatório da XP Investimentos destaca ainda que o acordo entre Estados Unidos e Japão, firmado nesta semana, para compra de carne bovina, impulsionou as ações da Marfrig e da JBS. “Apesar de a Marfrig já ser a maior exportadora de carne resfriada para o Japão, com o país asiático representando 5% da receita total da empresa em 2018, a notícia é positiva”, diz o relatório.

Unidades habilitadas a exportar

De acordo com o Ministério da Agricultura, 64 unidades estão habilitadas a exportar para a China, sendo 9 da BRF (entre aves e suínos); 21 da JBS (bovinos, suínos e aves); 3 da Marfrig (bovinos e outros tipos) e 1 unidade de bovinos do Minerva.

A analista da Agrifatto ressalta que, ao mesmo tempo que o Brasil depende das compras chinesas, o país asiático também precisa do produto brasileiro. “No setor alimentar, é difícil mudar de fornecedor de uma hora para outra. Dificilmente a China vai procurar outros mercados”, assinala.

Para o médio prazo, porém, há o risco de a China acelerar a busca por diversificação de países fornecedores para depender menos do Brasil -- o Brasil responde por 22% das importações chinesas de carne bovina. Segundo um investidor próximo ao governo chinês, algumas ações de Jair Bolsonaro, como a visita a Taiwan durante a campanha, ainda caem mal em Pequim. "A China vai habilitar novos frigoríficos, mas vai querer ser bem tratada", diz.

Na China, Mourão demonstrou interesse de incluir o Brasil na iniciativa global de investimentos Belt And Road (conhecida como a nova Rota da Seda), mas com foco em produtos de alto valor agregado. Se tudo der certo, lombinhos e sobre-coxas brasileiras serão cada vez mais comuns nos supermercados de Pequim e Xangai.

Acompanhe tudo sobre:ChinaComércio exteriorFrigoríficos

Mais de Negócios

Milhares de pacotes com camarão são recolhidos de supermercados nos EUA por risco de contaminação

Últimos dias para se inscrever no Prêmio Melhores dos Negócios Internacionais 2025

Startups estão fracassando por excesso de investimento, mostra pesquisa de Harvard

CEO da Nvidia chega a fortuna de US$ 142 bilhões e ameaça posição de Warren Buffett