Fundadores do Janela Bar: "A experiência é parte do produto. E se a gente errar a mão, começa a canibalizar a rede”
Repórter de Negócios
Publicado em 3 de abril de 2025 às 08h35.
Copo de plástico, balcão apertado e nada de garçom. Pode não parecer, mas esse é o modelo de bar que mais vende coquetel no Brasil.
O Janela Bar nasceu em Curitiba com uma missão improvável: servir drinks autorais com cara de coquetelaria fina — mas sem cobrar os 40 reais típicos da noite. E deu certo. Com 28 unidades espalhadas pelo país, a rede faturou 32 milhões de reais em 2024 e agora se prepara para abrir mais 12 bares neste ano. O plano? Chegar a 100 unidades nos próximos anos e consolidar o título de maior rede de coquetelaria do Brasil.
Criado pelos sócios Gustavo de Paiva, Pedro Smolka e Felipe Fernandes, o Janela começou como um puxadinho de 40 metros quadrados no fundo de um restaurante em Curitiba. Nada de sofisticação: o bar funcionava literalmente numa janela, os drinks vinham em copos descartáveis e a comida era feita numa cozinha alugada.
O que atraiu o público foi a combinação de preço acessível, receitas autorais e um clima de “esquenta antes da balada”.
A história volta ao radar agora porque o Janela entra em nova fase de expansão. A rede aposta no modelo de franquias para ganhar escala e quer marcar presença em regiões onde ainda é pouco conhecida, como Centro-Oeste e Nordeste.
“A gente sabe que bar não é só ponto comercial, é relacionamento. Então cada nova unidade tem que ser certeira, com franqueado local e engajado”, afirma Pedro Smolka, responsável pela área financeira do grupo.
O crescimento é planejado, mas sem perder o foco no modelo de operação enxuto. “A gente consegue atender até 200 pessoas em 30 metros quadrados. É tudo pensado para ser eficiente. Sem garçom, sem reserva, direto no balcão”, diz Gustavo Paiva. “O cliente come, bebe, gasta pouco e segue pra balada. O Janela esquenta a noite.”
Antes de virar rede de bares, os sócios estavam em outras áreas: Gustavo era designer, Pedro era engenheiro e Felipe, chef de cozinha. A parceria começou em 2016 com um bar rooftop de alta coquetelaria. O lugar era bonito, caro — e pouco viável.
“Era tudo muito sofisticado, mas também muito caro de manter. A gente viu que o brasileiro gosta de drink bom, só não quer pagar uma fortuna por isso”, lembra Gustavo.
A virada veio quando eles encontraram um ponto pequeno, barato, e resolveram testar um novo modelo: drinks criativos, preço acessível, sem serviço de mesa.
“A gente já sabia fazer coquetel bom. Só precisava baratear a operação. E deu certo. No primeiro ano, fomos indicados como um dos melhores bares da cidade — competindo com lugares que cobravam o triplo”, afirma.
O Janela virou franquia em 2021, depois de atravessar a pandemia segurando a operação sem demitir ninguém. Hoje, o investimento inicial para abrir uma unidade é de 300 mil reais. O faturamento médio mensal gira em torno de 140 mil reais, e o retorno costuma vir entre 14 e 18 meses. A margem de lucro varia entre 20% e 30%.
Para manter os custos baixos, o Janela simplificou tudo: os drinks são pensados para serem rápidos de montar, a operação funciona com equipe mínima e os insumos são, em sua maioria, de marcas locais.
“A gente não trabalha com grandes fornecedores internacionais. Preferimos destilados e cervejas artesanais brasileiras, que são bons e mais baratos”, afirma Pedro.
O modelo é tão eficiente que o Janela consegue operar bares com menos de 50 metros quadrados e ainda assim faturar alto. “O segredo é o volume. Quanto mais gente entra, mais a conta fecha”, diz Gustavo.
Mesmo com uma operação enxuta, a expansão exige cuidado. Bar, diferente de restaurante, é um negócio mais sensível à cultura local.
“Não dá pra abrir dez unidades numa mesma cidade. A experiência é parte do produto. E se a gente errar a mão, começa a canibalizar a rede”, afirma Pedro.
Por isso, cada franqueado é escolhido a dedo. Precisa morar na cidade, conhecer o público local e ser bom de relacionamento.
“Não dá pra ser só investidor. O franqueado tem que estar ali, no dia a dia, fazendo o marketing local, puxando evento, fechando parceria”, afirma Gustavo.
Além disso, cada unidade pode adaptar uma parte do cardápio com produtos regionais. Em Curitiba, tem pão com bolinho. Em João Pessoa, hambúrguer de carne de sol. “A gente chama de Janela Secrets. É o jeitinho local dentro do modelo da rede”, diz Gustavo.
A meta para 2025 é abrir 12 novas unidades e bater 45 milhões de reais em faturamento. As prioridbarades são o Centro-Oeste e o Nordeste — regiões ainda pouco exploradas pela marca, mas com bom potencial de público.
O cardápio deve continuar em constante atualização, com novos drinks e ingredientes alternativos. “A gente se antecipa às tendências. Quando começou a crescer o consumo de frango e hambúrguer vegetariano, já colocamos no cardápio. Agora estamos testando licor de banana e cachaça de embu. Nosso diferencial é esse: sempre entregar uma experiência nova, sem encarecer”, afirma Gustavo.
Com um olho no balcão e outro no crescimento, o Janela aposta em manter a simplicidade como vantagem competitiva. “A gente não quer virar um bar gourmet. Nosso negócio é ser direto, acessível e divertido. E isso, pelo visto, funciona.”