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Brasil tem poucos investidores na bolsa. Por quê?

O número de investidores na bolsa no Brasil é baixo comparado aos EUA, enquanto as criptos crescem. A falta de estímulo, acesso e boa comunicação com o público impede maior engajamento com ações, argumenta João Kepler

Criptoativos: por que o brasileiro médio prefere o risco dos criptoativos à lógica mais previsível da bolsa? (Kwun Kau Tam/Getty Images)

Criptoativos: por que o brasileiro médio prefere o risco dos criptoativos à lógica mais previsível da bolsa? (Kwun Kau Tam/Getty Images)

João Kepler
João Kepler

CEO Equity Fund Group e colaborador

Publicado em 31 de março de 2025 às 11h17.

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O número de brasileiros que investem em criptomoedas já supera, com folga, quem investe na bolsa de valores. Dados recentes mostram que 15% da população aplica em criptoativos, enquanto apenas 6% têm ações na B3.

Segundo a própria bolsa, havia cerca de 5,3 milhões de pessoas físicas investindo em ações no fim de 2024. Apesar do avanço nos últimos anos, esse número ainda representa uma fatia pequena da população economicamente ativa. O descompasso mostra o tamanho da distância entre o potencial do mercado e o engajamento real com o mercado acionário.

Nos Estados Unidos, a realidade é outra. Investir em ações faz parte da vida financeira. Mais da metade das famílias americanas mantém algum tipo de exposição à bolsa — seja direta, via fundos ou por meio de planos de aposentadoria. São cerca de 145 milhões de pessoas. Lá, investir não é uma escolha ousada. É um hábito.

A diferença de comportamento entre os países levanta uma pergunta: por que o brasileiro médio prefere o risco dos criptoativos à lógica mais previsível da bolsa?

Uma parte da resposta está no contexto. A economia brasileira é marcada por instabilidade fiscal, juros que sobem e descem com frequência e um histórico de desconfiança nas instituições. Dentro desse cenário, a promessa de retorno rápido e autonomia oferecida pelas criptos se torna mais atraente que os fundamentos de longo prazo das ações.

Outro ponto importante é a experiência de acesso. As plataformas de cripto são simples, digitais e resolvem tudo em poucos cliques. Com R$ 10 via Pix, qualquer pessoa consegue começar. A linguagem é direta. A comunicação é clara. O onboarding é fluido. Isso ajuda a criar uma cultura nova, conectada com o comportamento do investidor moderno.

Fenômeno global

Esse fenômeno não é só brasileiro. Em países como Argentina e Turquia, que também enfrentam inflação alta e instabilidade cambial, o número de investidores em criptoativos cresceu nos últimos anos. A diferença é que, no Brasil, mesmo com uma bolsa estruturada e estável, a cripto conseguiu ganhar terreno primeiro.

A questão, então, não é se há desinteresse. É se existe estímulo. Pode faltar acesso, comunicação e experiências que façam sentido. A prova disso é que cresce, ano após ano, o número de brasileiros que investem diretamente na bolsa americana. Investidores com patrimônio a partir de 300 mil reais estão diversificando fora do país — em busca de estabilidade, menos burocracia e mais variedade de ativos.

A Nuvini, por exemplo, já soma mais de 5.000 investidores. Muitos deles brasileiros. A empresa é uma das sete companhias do país listadas na Nasdaq, ao lado de nomes como XP, Nubank, Inter&Co, PagSeguro, StoneCo e Zenvia. Quando há uma boa história, e o acesso é bem resolvido, o interesse aparece.

Outro exemplo relevante foi o IPO do Nubank. A distribuição gratuita de um BDR — apelidado de “pedacinho” — não só ajudou a atrair novos investidores, como criou um caso de inclusão financeira em escala. A linguagem era simples, o processo era digital, e o investimento mínimo era simbólico. Mais que marketing, foi um modelo de como a bolsa pode se tornar mais acessível.

Como conversar com a nova geração

O problema não está apenas na falta de educação financeira. Está também na falta de experiências bem construídas e de comunicação alinhada com o público. Enquanto o universo cripto fala com o investidor jovem no tom certo, a bolsa ainda parece presa a uma linguagem que não conversa com a nova geração.

Além disso, há um outro concorrente silencioso nesse jogo: as apostas esportivas. Segundo o Instituto Locomotiva, entre janeiro e julho de 2024, mais de 25 milhões de brasileiros começaram a apostar online. Em cinco anos, o total de apostadores já ultrapassa 52 milhões. Isso mostra que o brasileiro está disposto a correr riscos — desde que o caminho seja simples, envolvente e rápido.

A educação financeira segue sendo relevante, mas sozinha não resolve. Ainda temos mais de 80 milhões de pessoas com dinheiro na poupança. O desafio não é só ensinar. É redesenhar o acesso. É mostrar que investir em ações pode ser tão simples quanto usar um app de cripto.

O Brasil precisa repensar como apresenta a bolsa à população. O que falta não é produto, é conexão. A disputa não é entre ações e criptomoedas. É entre o velho e o novo jeito de investir.

Se a bolsa conseguir entregar uma experiência acessível, direta e com boas histórias, como o cripto fez, talvez veja nascer uma nova geração de investidores por aqui.

João Kepler
@joaokepler

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