De Nova York a San Francisco, milhões de americanos devem sair às ruas para expressar sua insatisfação com as políticas do presidente Donald Trump nos protestos nacionais “Sem Reis” (AFP)
Redação Exame
Publicado em 18 de outubro de 2025 às 12h17.
Última atualização em 18 de outubro de 2025 às 21h12.
Opositores do presidente Donald Trump se reuniram neste sábado (18) em manifestações convocadas de Nova York a San Francisco — e fora do país — sob o lema "No Kings" ("Sem Reis"), alguns meses após uma jornada de protesto em que milhões de pessoas saíram às ruas.
"O presidente acredita que seu poder é absoluto. Mas nos Estados Unidos não temos reis e não cederemos ao caos, à corrupção e à crueldade", afirma o movimento "No Kings", que reúne quase 300 organizações, em seu site.
Mais de 2.700 manifestações estavam programadas de costa a costa, de grandes cidades como Washington, Boston, Chicago e Atlanta, até pequenas localidades, e até mesmo perto da residência de Trump em Mar-a-Lago, na Flórida, onde o presidente está passando o fim de semana.
Em Nova York, milhares marcharam pela Broadway, saindo da Times Square. Entre eles, Nadja Rutkowski, que emigrou para os Estados Unidos da Alemanha aos 14 anos e protesta por temer que a história fascista possa se repetir.
"Venho de um país onde o que está acontecendo agora já aconteceu antes, em 1938", contou à AFP.
"As pessoas estão sendo sequestradas nas ruas", disse. "Sabemos disso, estamos vendo isso, está acontecendo em tempo real. Por isso temos que nos levantar", insistiu.
Os manifestantes exibiam cartazes com slogans como "As rainhas dizem não aos reis" e "Protestamos porque amamos os Estados Unidos e queremos recuperá-los!".
Happening now: Here’s a view of the “No Kings” protest in Washington, DC pic.twitter.com/dpKlbJQZoq
— philip lewis (@Phil_Lewis_) October 18, 2025
Milhões de pessoas participaram dos protestos de 14 de junho, depois que Trump ordenou o envio de tropas a Los Angeles, uma medida que levou seus críticos a acusá-lo de agir como um ditador.
Foi o dia de manifestações com mais pessoas nas ruas desde que o republicano voltou à Casa Branca em janeiro. Em junho, Trump prometeu usar uma força "muito grande" se os manifestantes tentassem interromper um desfile militar na capital federal. Desde então, ele ampliou o envio de tropas a cidades americanas, o que revoltou seus críticos.
"Dizem que se referem a mim como um rei. Eu não sou um rei", declarou ao canal Fox News antes das manifestações.
"Este presidente é uma vergonha e espero que hoje milhões de pessoas estejam nas ruas", declarou Stephanie, uma profissional de saúde de 36 anos que não quis dar seu sobrenome à AFP, no bairro do Queens, em Nova York.
Os principais aliados de Trump no Partido Republicano se mostraram mais combativos. O presidente da Câmara de Representantes, Mike Johnson, chamou a jornada de protesto "no Kings" de manifestação de "Ódio aos Estados Unidos".
"Vão reunir marxistas, socialistas, defensores dos Antifa, anarquistas e a ala pró-Hamas do Partido Democrata de extrema esquerda", declarou.
O congressista democrata Glenn Ivey rejeitou o termo "ódio" relacionado ao protesto anti-Trump.
"Entendo por que estão nervosos e tentam apresentá-lo de forma negativa. É realmente uma resposta ao que eles estão fazendo: minar o país, destruir o Estado de Direito e enfraquecer nossa democracia", acrescentou.
BREAKING: Massive turnout at the No Kings Day protest in New York City Times Square.
This is Trump‘s worst nightmare. People normalizing the fact that it’s OK to protest against a wannabe dictator. pic.twitter.com/V2s0sE8fdW
— Brian Krassenstein (@krassenstein) October 18, 2025
Até agora, a resposta de Trump aos eventos deste sábado tem sido moderada.
Sua equipe de comunicação publicou um vídeo gerado por inteligência artificial na rede social X que mostra o presidente vestido com traje real e uma coroa, acenando de uma sacada.
Já Isaac Harder, de 16 anos, garantiu que teme pelo futuro de sua geração: "É um caminho fascista. E quero fazer o possível para impedir isso".
Além de cidades importantes como Washington, Boston, Chicago, Atlanta e Nova Orleans, protestos "No Kings" foram convocados em pequenas localidades dos 50 estados e até mesmo no Canadá.
Muitos manifestantes levam bandeiras americanas e peças de roupa amarelas, uma cor utilizada em outros movimentos pacíficos como os protestos de Hong Kong de 2019. Também há fantasias de animais para manter um ambiente descontraído.
A plataforma organizadora, integrada por cerca de 200 organizações, ressaltou o caráter pacífico da mobilização e lembrou em seu site que as armas estão proibidas. Na quinta-feira, Deirdre Schifeling, diretora política e de defesa da União Americana pelas Liberdades Civis, afirmou que os manifestantes querem transmitir que "somos um país de iguais".
"Somos um país de leis aplicadas a todos, do devido processo e da democracia. Não seremos silenciados", afirmou.
Leah Greenberg, cofundadora do Projeto Indivisível, criticou os esforços da administração Trump para enviar a Guarda Nacional às cidades do país, reprimir migrantes sem documentos e processar opositores políticos. "É o manual clássico do autoritarismo: ameaçar, difamar e mentir, assustar as pessoas para que desistam", disse Greenberg. "Não seremos intimidados", acrescentou.
O ator Robert De Niro, vencedor do Oscar e um conhecido crítico de Trump, convocou os manifestantes a participar de protestos contra o presidente.
"Tivemos dois séculos e meio de democracia (...) muitas vezes desafiadora, às vezes confusa, sempre essencial", afirmou De Niro em um vídeo.
"Agora temos um aspirante a rei que quer nos roubá-la: o rei Donald I", disse.
"Estamos nos levantando novamente, levantando nossas vozes de forma não violenta para declarar: Sem Reis".
Placa durante a manifestação "No Kings", nos EUA. Em inglês, a placa diz: "não sou pago para protestar, odeio o Trump de graça" (Reprodução/Redes sociais).
Imigrantes norte-americanos realizaram manifestações em várias cidades europeias neste sábado (18), em apoio ao movimento “No Kings” (“Sem Reis”) que protesta contra o avanço do autoritarismo nos Estados Unidos. Os atos ocorreram em paralelo às grandes mobilizações previstas para Washington e outras cidades norte-americanas ao longo do dia.
Em Madri, centenas de pessoas se reuniram em um comício organizado pelo grupo Democrats Abroad, entoando slogans e exibindo cartazes contra o governo de Donald Trump. Protestos semelhantes também foram registrados em Paris, Berlim, Lisboa e Roma, reunindo centenas de manifestantes.
As manifestações ocorrem em meio à paralisação do governo dos Estados Unidos, que resultou no fechamento de programas e serviços federais, ampliando a tensão entre o Executivo, o Congresso e o Judiciário.
Segundo os organizadores, o momento representa “um teste ao equilíbrio democrático” e um alerta contra o autoritarismo americano.
O ex-presidente Donald Trump, alvo central das críticas, passou o sábado em sua residência Mar-a-Lago, na Flórida, longe das principais manifestações.
Os protestos deste fim de semana são vistos pelos organizadores como um passo rumo à formação de uma frente unificada de oposição ao ex-presidente.