West Sumatra, Indonésia, em 27 de novembro: Indonésia concentra mais da metade das vítimas, com mais de 300 mortos (Anadolu / Colaborador/Getty Images)
Publicado em 29 de novembro de 2025 às 15h21.
Última atualização em 29 de novembro de 2025 às 15h24.
Cerca de 600 pessoas morreram no Sudeste Asiático após uma sequência de chuvas extremas devastar regiões da Indonésia, Tailândia, Malásia e Sri Lanka nos últimos dias. Os números e relatos das áreas atingidas foram divulgados pela agência AFP, que descreve cenas de comunidades submersas, bairros isolados por lama e necrotérios operando acima do limite.
A Indonésia, segundo a agência internacional, concentra mais da metade das vítimas, com mais de 300 mortos. Em Pidie, Novia, uma das moradoras afetadas, relatou: “A água recuou em nossa casa, mas tudo continua coberto de lama”. Outros moradores, como Firda Yusra, precisaram abandonar suas casas às pressas: “Nós comemos qualquer coisa que esteja ao alcance”, disse à AFP.
Na Tailândia, 162 pessoas morreram nas sete províncias atingidas, mais de 100 delas em Songkhla, onde a água chegou a três metros, segundo a agência internacional. Com necrotérios lotados, caminhões frigoríficos foram acionados para armazenar corpos. O primeiro-ministro tailandês pediu desculpas públicas aos afetados e anunciou indenizações.
No Sri Lanka, a AFP informa 132 mortes, quase 80 mil desabrigados e 176 desaparecidos, além da decretação de estado de emergência. Na Malásia, dois óbitos foram confirmados após enchentes no estado de Perlis.
À EXAME, especialistas explicam as causas da tragédia e apontam paralelos entre os eventos extremos na Ásia e os desastres recentes no Brasil, como as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, e a tragédia de Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 2022.
Deli Sergang, Indonésia, em 27 de novembro de 2025. Tailândia, Malásia e Sri Lanka também foram atingidos (Anadolu / Colaborador/Getty Images)
Para explicar por que esses países são tão vulneráveis, Gerardo Portela, engenheiro, PhD em riscos e segurança e consultor do Centro de Operações e Resiliência do Rio de Janeiro (COR-Rio), destaca que o Sudeste Asiático convive historicamente com as monções — sistemas de ventos que provocam precipitações extremamente intensas.
“Essa é uma região conhecida por monções de verão, fenômenos que já produzem chuvas muito, muito elevadas. É algo imposto pela própria geografia local”, afirma Portela.
O sofrimento é inversamente proporcional ao grau de desenvolvimento técnico da engenharia de prevenção, afirma o engenheiro. "Cidades que têm sistemas de drenagem avançados suportam melhor o impacto, como é o caso de Singapura.”
Segundo ele, antes de avaliar a tragédia nos quatro países, é importante observar como Singapura respondeu à mesma tormenta.
“Singapura tem sistemas de drenagem de referência internacional. As ruas são desenhadas para captar água em grande volume e direcioná-la rapidamente para canais estruturantes.”
O ano de 2025 marcou um agravamento incomum da temporada de monções, e especialistas apontam o pano de fundo climático global como explicação. Para Pedro Jacobi, professor e pesquisador da USP, com formação em Ciências Sociais, Economia e mestrado em Harvard, a região vive um padrão climático cada vez mais acelerado.
“O que a gente observa é que tem aumentado muito a incidência e a turbulência dessas monções”, diz. “Essa concentração de chuvas numa velocidade tão alta acelera o movimento das águas e potencializa a destruição,” afirma o professor.
Portela complementa com uma análise técnica dos ciclos climáticos. Além das estações tradicionais, ele conta que o planeta passa por ciclos maiores de aquecimento e resfriamento que duram décadas ou séculos.
“Estamos hoje num ciclo de aquecimento, que tem a influência humana, mas que pode também ser ampliado por fatores naturais ainda não totalmente compreendidos,” afirma o engenheiro Portela.
A ciência ainda investiga anomalias como alterações magnéticas no Atlântico Sul ou efeitos de tempestades solares, diz Portela.
“Temos dados muito precisos dos últimos 200 anos, mas pouco sobre o comportamento climático em escala de milênios. A influência humana no aquecimento é real, mas pode não ser a única variável”, afirma.
West Sumatra, Indonésia, em 27 de novembro de 2025 (Anadolu / Colaborador/Getty Images)
Governos da região decretaram estado de emergência, anunciaram indenizações e pediram desculpas. Para Portela, porém, o problema é estrutural, e a resposta chega tarde.
“Há uma diferença entre resposta à emergência e prevenção. Quando não se tem prevenção, a resposta fica muito mais cara e menos eficaz”, afirma.
Jacobi concorda e afirma que a escala atual de mortes, que chegaram a 600 óbitos, reflete não só o desequilíbrio climático global, mas também a vulnerabilidade das populações mais pobres.
“A vulnerabilidade define quem vive e quem morre. Casas em encostas, ocupações irregulares, baixa manutenção de estruturas de proteção, tudo isso amplifica tragédias.”
Os eventos no Sudeste Asiático dialogam diretamente com os desastres recentes no Brasil.
Jacobi destaca que, no Rio Grande do Sul, a falta de manutenção dos diques e sistemas de proteção agravou o impacto das chuvas de 2024.
“Eram estruturas criadas desde a década de 1960, que não receberam a manutenção necessária. Isso não pode ser ignorado”, diz.
Em 2022, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, o fator decisivo foi a ocupação de áreas altamente vulneráveis.
“Muitas vítimas estavam em áreas sujeitas a deslizamentos. A lógica da vulnerabilidade se repete no mundo.”
A tragédia asiática, segundo Portela, deveria acender uma luz vermelha para o Brasil - e a solução passa por algo que o país ainda não tem: uma metodologia nacional obrigatória de análise de riscos climáticos.
“Cada estado e cada município deveria ser obrigado a fazer análises de risco usando técnicas consagradas, como Hazop e Hazid. Não pode ser opinião: tem que ser engenharia”, afirma.
O engenheiro especialista em risco explica que já recomendou ao Senado a criação de um “mapa anual de risco climático” para o país, revisado a cada dois anos.
“O Brasil precisa classificar riscos em aceitáveis, moderados ou inaceitáveis. Riscos inaceitáveis exigem ações imediatas, remover moradores, reforçar infraestrutura, impedir tragédias anunciadas.”
O COR-Rio (Centro de Operações e Resiliência do Rio de Janeiro), segundo Portela, já começou a adotar esse modelo com apoio de ferramentas da ONU.
“Ainda estamos no início, mas sabemos como fazer. Já há cenários mapeados e é possível expandir isso para todo o país.”
Vista aérea do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) inundado no centro da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em maio de 2024 (Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (SEDAC)/Divulgação)
Enquanto os países do Sudeste Asiático iniciam a limpeza e a reconstrução, os especialistas reforçam que a transformação necessária é mais profunda.
“Os planos de ação climática precisam priorizar prevenção, antecipação e reordenação urbana. Não dá para reagir só depois da tragédia”, afirma Jacobi.
Portela novamente reforça o papel da engenharia e Singapura como exemplo. “É preciso atualizar normas e construir infraestrutura preparada para volumes atípicos. Singapura mostra que é possível.”