Fluxo de dados: Estudo aponta 'superávit digital' de US$ 600 bilhões dos EUA — e põe em xeque tarifas de Trump (Getty Images/Getty Images)
Editor de Macroeconomia
Publicado em 4 de abril de 2025 às 07h18.
Última atualização em 4 de abril de 2025 às 10h03.
Em 2024, os Estados Unidos exportaram US$ 3,2 trilhões em bens físicos e serviços e importaram US$ 4,11 trilhões. Ou seja, um déficit de US$ 918 bilhões — 17% maior do que o ano anterior, segundo o Departamento de Análise Econômica (BEA, em inglês), órgão do governo dos Estados Unidos responsável por produzir estatísticas oficiais sobre a economia do país.
É com base nesse déficit que o presidente Donald Trump montou sua política de tarifas recíprocas. Mas análises recentes sugerem que esses números não contam a história inteira.
Um estudo publicado na Nature Communications pelos economistas Viktor Stojkoski, Philipp Koch, Eva Coll e César A. Hidalgo introduziu um método para estimar o comércio de produtos digitais a partir de dados de receita corporativa.
"O déficit comercial dos EUA é tão grave quanto Trump afirma? Ou os números do comércio falham ao não contabilizar o impressionante superávit digital americano?", questionou Hidalgo, um dos maiores estudiosos de comércio exterior e desenvolvimento econômico, e diretor da escola de economia da Universidade de Toulouse, no X.
Is the US trade deficit as bad as Trump says? Or do trade numbers fail to account for America's amazing digital trade surplus?
In 2024 the United States exported about $2 trillion in physical goods and imported about $3.27 trillion. At face value, that would translate into a… pic.twitter.com/jUgnHnrsD3
— César A. Hidalgo (@cesifoti) April 2, 2025
Ele apontou que, há algum tempo, os EUA vêm exportando por routers e importando por portos.
"Um exemplo disso é a Califórnia, que em 2024 exportou US$ 183 bilhões em bens físicos e importou cerca de US$ 490 bilhões. Como foi possível pagar essa diferença? Com seu impressionante superávit em "bits". Sempre que um estrangeiro assiste a um filme na Netflix ou compra um anúncio no Facebook, a Califórnia está exportando", complementou Hidalgo.
No estudo, os pesquisadores estimam que os EUA possuem um superávit de pelo menos US$ 600 bilhões em produtos digitais, incluindo publicidade digital, computação em nuvem, serviços de streaming e pagamentos. Esse superávit é comparável ao total das exportações da França, sétima maior exportadora mundial.
Categorias como publicidade digital e computação em nuvem destacam-se, com exportações estimadas em US$ 260 bilhões e US$ 184 bilhões, respectivamente. Esses valores superam as principais exportações físicas dos EUA, como petróleo bruto e refinado, cada uma em torno de US$ 100 bilhões anuais.
"O comércio digital, no entanto, é difícil de mensurar porque boa parte dele se enquadra no chamado comércio 'modo 3' do GATS, ou seja, aquele que ocorre por meio da presença física em um país estrangeiro (como uma subsidiária). Um europeu que contrata serviços de computação em nuvem da Amazon, por exemplo, não conta como uma exportação dos EUA, porque na Europa a Amazon opera a partir de Luxemburgo. Isso significa que há muito comércio invisível, como a parte submersa de um iceberg. Isso é especialmente verdadeiro para produtos digitais, que requerem pouca ou nenhuma presença física no país comprador", ponderou Hidalgo.
Ao considerar o superávit digital, o déficit comercial dos EUA pode ser significativamente menor do que os números tradicionais indicam, apontam os pesquisadores.
Isso sugere que a narrativa sobre a balança comercial americano pode ser reavaliada, levando em conta tanto os bens físicos quanto os serviços digitais.
"Nossas estimativas estão longe de ser perfeitas e são intencionalmente conservadoras (priorizamos o consumo doméstico em vez das exportações sempre que possível). Ainda assim, elas revelam um superávit digital extraordinário em favor dos EUA, com bilhões de dólares em categorias não captadas pelos dados tradicionais de comércio físico, como publicidade digital, computação em nuvem, vídeo sob demanda e serviços de pagamento", aponta Hidalgo.
Nas contas de Hildalgo e seus co-autores, em 2024, os Estados Unidos registraram um volume de exportações digitais estimado em US$ 705 bilhões, liderado por empresas como a Alphabet, com US$ 141 bilhões, e a Meta, com US$ 71,2 bilhões.
Companhias como Oracle (US$ 45,2 bi), Amazon (US$ 32,3 bi), Microsoft (US$ 31,6 bi + US$ 38,9 bi em duas categorias diferentes), Netflix (US$ 19,4 bi), Apple (US$ 11,9 bi) e PayPal (US$ 13,7 bi) também aparecem entre os maiores exportadores digitais.
A soma das exportações digitais supera em mais de cinco vezes o valor total das importações digitais, consolidando um superávit robusto para os EUA nesse setor estratégico.Do lado das importações, os EUA compraram cerca de US$ 131 bilhões em produtos e serviços digitais, com destaque para empresas asiáticas.
O maior volume veio do Alibaba Group, com US$ 15,5 bilhões, seguido por Bytedance (US$ 12,4 bi), Shopify (US$ 9,1 bi) e Rakuten (US$ 7,7 bi).
Plataformas como Spotify, Sony, Nintendo e SAP também aparecem entre as principais fornecedoras digitais externas.
As políticas comerciais dos EUA têm focado predominantemente no comércio de bens físicos, com a implementação de tarifas significativas visando reduzir déficits. No entanto, essas medidas não consideram o crescente superávit no setor digital.
Economistas argumentam que uma abordagem mais equilibrada, que reconheça a importância do comércio digital, poderia oferecer uma visão mais precisa da posição econômica dos EUA no cenário global.
Em suma, enquanto os números tradicionais apontam para um déficit comercial substancial, a inclusão do superávit digital revela uma realidade econômica mais complexa e possivelmente mais favorável para os Estados Unidos.
"O déficit comercial dos EUA é tão grave quanto Trump afirma? Nem tanto — ao menos quando se considera o comércio digital americano", escreveu Hidalgo. "Enquanto as métricas tradicionais destacam um déficit trilionário, os produtos gerados pelos “bits” do Vale do Silício — de computação em nuvem ao streaming — geram um enorme superávit."
Para o pesquisador, a "verdadeira história" não está apenas nos portos e contêineres, mas também nos routers e centros de dados.
"Trata-se de exportações digitais que não sofrem tarifas. Se medíssemos o comércio do século 21 da forma como ele realmente acontece, a narrativa poderia se inverter. O déficit não desapareceu — só está escondido à vista de todos. Você está olhando para ele enquanto lê esta mensagem", diz.