Mercado emagrecedor: comprimidos e injeções avançadas devem chegar com maior eficácia (Steve Christo - Corbis/Getty Images)
Repórter de finanças
Publicado em 30 de novembro de 2025 às 20h17.
A demanda por remédios para perda de peso, conhecidos como agonistas de GLP-1, permanece insaciável desde que foram lançados há cerca de dez anos. Em 2024, o gasto global com essas terapias somou US$ 54 bilhões — e tudo indica que esse montante continuará crescendo.
Comercializados sob nomes como Wegovy, Ozempic, Mounjaro e Zepbound, esses medicamentos não apenas ajudam a reduzir medidas, mas também demonstram capacidade de diminuir riscos cardíacos, hepáticos e renais. Com farmacêuticas disputando espaço nesse mercado bilionário, a oferta de produtos deve se expandir ainda mais a partir de 2026.
Segundo o The Economist, uma segunda geração de medicamentos para emagrecer está prestes a chegar ao mercado. As novas formulações prometem ser mais fáceis de usar, mais potentes e com efeito prolongado
Um dos movimentos mais relevantes será a estreia dos primeiros GLP-1 administrados por via oral. A dinamarquesa Novo Nordisk, responsável por Wegovy e Ozempic, prepara o lançamento de uma versão em comprimido da semaglutida — o mesmo princípio ativo das canetas — que apresentou perda de peso média de 16,6% em um ano.
A concorrente americana Eli Lilly, fabricante de Mounjaro e Zepbound, também avança com seu comprimido de orforglipron, que registrou redução de 12,4%. Apesar de menos eficazes do que as injeções, que entregam quedas de 16% a 23% no mesmo período, os comprimidos tendem a ser mais práticos.
Ainda assim, Ahmed Ahmed, do Imperial College London, alerta ao The Economist que esses resultados talvez não se repitam fora dos ensaios clínicos. Uma dose diária, em vez de uma aplicação semanal, pode levar pacientes a esquecer comprimidos ou pular ocasionalmente para evitar efeitos adversos.
Ao mesmo tempo, versões mais avançadas dos injetáveis também se aproximam. Em 2026, as atenções devem se voltar para o novo candidato da Lilly, o retatrutide — um “triplo agonista” que aciona três receptores ligados ao controle de peso e ganhou o apelido de “Godzilla” dos medicamentos para emagrecimento.
Em testes de fase dois, participantes perderam 24% do peso corporal em 48 semanas; esses resultados ainda precisam ser confirmados nos estudos de fase três, previstos para o fim de 2025. Logo atrás está o CagriSema, da Novo Nordisk, que combina Wegovy com um análogo de amilina, molécula associada à saciedade. Em ensaios de fase três, essa combinação mostrou perda de 23%.
Há também uma corrida por injeções de GLP-1 de ação prolongada, aplicadas mensalmente. Segundo o The Economist, a americana Amgen desenvolve o MariTide, que pode levar a uma perda de cerca de 20% após um ano, resultado que ainda aguarda validação na fase três.
Paralelamente, empresas buscam novos tratamentos capazes de mitigar a perda de massa magra associada ao uso desses remédios. A Eli Lilly trabalha em um anticorpo chamado bimagrumab, que se liga a receptores responsáveis por aumentar a massa muscular esquelética.
Testes iniciais mostram que, combinado à semaglutida, o medicamento pode gerar redução de 22% do peso em 72 semanas — sendo 93% dessa queda proveniente de gordura (contra 72% quando a semaglutida é usada isoladamente). Os estudos devem continuar em 2026.
Esse avanço de produtos tende a impulsionar os lucros das farmacêuticas. Por outro lado, a concorrência pode pressionar preços, especialmente para terapias de primeira geração ou com eficácia levemente inferior. É provável que alguns sistemas de saúde financiados pelo governo façam acordos em larga escala nos próximos anos, o que poderá ampliar o acesso.
A expiração da patente da semaglutida em diversos mercados — exceto América e Europa — em 2026 também abrirá espaço para genéricos de baixo custo, aumentando a disponibilidade em países como Brasil, China e Índia.
Se uma versão genérica de semaglutida fosse oferecida a todas as pessoas com obesidade e diabetes no mundo, isso poderia evitar entre 2,1 milhões e 3,1 milhões de mortes por ano, segundo estimativas acessadas pelo The Economist.
Além dos efeitos na perda de peso, já se sabe que os GLP-1 reduzem eventos cardiovasculares, melhoram a apneia do sono, protegem rins e fígado e podem até atenuar comportamentos aditivos. Sinais preliminares apontam também para menor risco de câncer e Alzheimer.
Novos dados sobre esses benefícios inesperados devem ser divulgados nos próximos meses. De todo modo, 2026 se desenha como um ano decisivo para essa classe de medicamentos transformadores.