Inteligência Artificial

Meta perde talentos de IA recém-contratados; o que está por trás da crise?

Após gastar US$ 14,3 bilhões para trazer Alexandr Wang e dezenas de engenheiros de rivais como OpenAI e Google, empresa congela contratações e perde nomes-chave em meio à corrida global da IA

Mark Zuckerberg: CEO da Meta (VINCENT FEURAY / Colaborador/Getty Images)

Mark Zuckerberg: CEO da Meta (VINCENT FEURAY / Colaborador/Getty Images)

Publicado em 29 de agosto de 2025 às 10h25.

Última atualização em 29 de agosto de 2025 às 10h28.

No fim de junho, em Menlo Park, Mark Zuckerberg parecia mais um dirigente de futebol em plena janela de transferências do que o CEO de uma gigante de tecnologia[/grifar]. Depois de meses de críticas ao desempenho do Llama 4, o modelo de IA de código aberto que não empolgou a comunidade, e do adiamento do ambicioso Behemoth, o fundador da Meta decidiu abrir o cofre.

O alvo principal tinha nome e sobrenome: Alexandr Wang, 28 anos, fundador da Scale AI, empresa de rotulagem de dados essenciais para treinar modelos de inteligência artificial. O preço da jogada chamou atenção até para os padrões do Vale do Silício: US$ 14,3 bilhões por uma participação de 49% na Scale, em uma operação que entrou para a história como uma das maiores acquihires já feitas no setor.

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Zuckerberg sabia que precisava virar a página rapidamente. A Meta, dona de plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp, vinha sendo questionada por analistas e investidores sobre sua relevância na corrida da inteligência artificial. Enquanto a OpenAI firmava parcerias bilionárias com a Microsoft, a Anthropic era cortejada pelo Google e a Amazon avançava com sua própria estratégia, a Meta parecia à margem.

O Llama 4 havia decepcionado e o Behemoth, visto como a resposta interna à GPT-4, atrasara. Era hora de montar um novo centro de gravidade para a IA dentro da empresa, o Meta Superintelligence Labs, ou simplesmente MSL.

A chegada de Wang representava mais que talento técnico. Era uma aposta simbólica: mostrar que a Meta podia competir de igual para igual na guerra por cérebros da IA. Ao lado dele, Zuckerberg trouxe Nat Friedman, ex-CEO do GitHub, para comandar produtos e aplicações. A dupla começou a recrutar como se estivesse montando um “dream team”.

Em poucas semanas, mais de 50 pesquisadores e engenheiros foram contratados, incluindo 20 da OpenAI, 13 do Google DeepMind, seis da Apple, três da xAI e dois da Anthropic. A Meta passou a ser vista como uma força agressiva no mercado de talentos, disposta a pagar pacotes milionários em salários e ações — alguns chegando a US$ 300 milhões ao longo de quatro anos, segundo relatos não confirmados pela empresa.

A ofensiva parecia funcionar, mas a maré mudou rapidamente. Dois meses depois da inauguração do MSL, o noticiário já não era de reforços, mas de baixas. Pesquisadores e engenheiros começaram a deixar a Meta, alguns antes mesmo de assumir oficialmente seus postos. Segundo reportagens de veículos como Wired e Business Insider, pelo menos oito funcionários saíram, incluindo nomes estratégicos. Chaya Nayak, veterana de nove anos na empresa, partiu para a OpenAI.

Afroz Mohiuddin, que havia trabalhado 14 anos no Google, fez o mesmo. Outros casos chamaram ainda mais atenção: Avi Verma e Ethan Knight, contratados da OpenAI, voltaram à empresa de origem menos de um mês após aceitarem a proposta da Meta. Houve até episódios constrangedores, como o do cientista Shengjia Zhao, ex-OpenAI, que, segundo o Gizmodo, teria tentado retornar à antiga casa antes mesmo de assinar contrato com a Meta.

Um porta-voz minimizou as saídas, dizendo que movimentos assim são comuns em ciclos de recrutamento intenso. Mas, para analistas, os episódios levantaram dúvidas sobre a coesão do projeto. O sinal mais evidente veio no meio de agosto, quando a Meta anunciou um congelamento temporário de contratações e uma reorganização estrutural do MSL.

Documentos internos, obtidos pelo The Verge, revelam que a divisão passará a planejar o orçamento de 2026 com mais cautela, distribuindo seus esforços em quatro frentes: o TBD Lab, focado em alcançar a superinteligência; o FAIR, grupo histórico de pesquisa reposicionado como motor de inovação; a área de Produtos e Pesquisa Aplicada, responsável por aproximar pesquisa e desenvolvimento; e o MSL Infra, dedicado à construção de clusters de GPU, ambientes de dados e ferramentas para desenvolvedores. A Meta também dissolveu a equipe AGI Foundations, transferindo seus membros para essas novas estruturas.

Nas redes sociais, Alexandr Wang tentou tranquilizar investidores e funcionários: “Estamos realmente investindo cada vez mais na Meta Superintelligence Labs. Qualquer informação contrária é equivocada”, escreveu no X (antigo Twitter). O recado, embora direto, não dissipou a sensação de que a iniciativa, tão celebrada semanas antes, já enfrenta turbulências internas.

Zuckerberg sinalizou que a empresa deve gastar entre US$ 66 bilhões e US$ 72 bilhões em 2025 em IA — entre infraestrutura, clusters de chips e contratações. É uma das maiores apostas da história da Meta desde a aquisição do WhatsApp e o fracassado mergulho no metaverso. Mas a pergunta permanece: será suficiente? O MSL nasceu como resposta a uma sequência de frustrações técnicas e de imagem, e agora precisa provar que não será apenas mais um projeto bilionário interrompido no meio do caminho.

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