Colunista
Publicado em 27 de novembro de 2025 às 20h52.
Trump está se aproximando de um ano de mandato e acabou entregando o que prometeu. Infelizmente, o prometido não foi nada positivo para a economia americana. Esse desajuste vai além da economia. É fato que a guerra tarifária machuca o país e causará estragos permanentes em sua economia, mas Trump tem significado mais do que isso.
Já tem algum tempo que se nota uma inflexão dos EUA para algo mais oligopolizado. Estamos longe da ideia de desmonte do oligopólio do petróleo que o país viveu no começo do século XX. A façanha de Theodore Roosevelt de enfrentar a Standard Oil de John Rockefeller entrou para a história como um movimento do governo em prol da sociedade. Isso, obviamente, não significa que grandes empresas não sejam importantes. Há estudos recentes que mostram que essas mesmas empresas gigantescas foram essenciais para gerar a escala necessária para os EUA virarem o que viraram. A questão hoje é de outra ordem.
Há uma captura crescente que tem sido estudada por Thomas Phillippon na economia e Francis Fukuyama na política que significa crescente proteção dessas empresas contra competição. É o lobby levado às últimas consequências e o resultado são empresas se concentrando e diminuindo capacidade de aumentar a produtividade. Proteção nesse sentido não aumenta a destruição criativa que é base das inovações na teoria que os prêmios Nobel de economia desse ano, Philip Aghion, Peter Howitt e Joel Mokyr, trouxeram. Mais inovação acaba levando ao próprio crescimento dessas empresas, o que pode ter um limite. Isso leva a um período de fusões e aquisições que tem sido a tônica no mercado de tecnologia especialmente. A presença maciça dessas empresas na posse de Trump este ano deu o sinal de uma relação simbiótica entre a política e a economia como nunca na economia americana. Claro que muito pode se falar da necessidade dessa aproximação por conta da competição chinesa. Mas quando se vê o governo americano adquirindo 10% das ações da Intel, por exemplo, nota-se um modelo distante do puramente competitivo de outrora. As empresas passam a ser instrumentos de interesse político, que também sempre foram, mas nunca nesse grau de proximidade de Washington.
Trump preza esse tipo de interação, mas fica a dúvida o que sairá disso. Ao mesmo tempo que parece querer mimetizar a experiência chinesa com a presença do Estado na
economia, vai retirando aos poucos a base de sustentação da economia americana ao longo do tempo: diminuição de investimentos em educação e inovação básica, ataque às universidades e aos imigrantes qualificados destas, forte queda na taxa de crescimento de patentes. Tudo que Trump deveria prezar para fortalecer a competição com a China não tem sido feito. O risco é de se manter empresas gigantes que não tem base real de competição por conta dessa fragilidade de base. O risco é os EUA virem uma grande América Latina, onde o cronismo, ou seja, a relação incestuosa entre setor privado e público, sem base de sustentação real leva a empresas crescentemente menos competitivas. A guerra tarifária apenas ajuda a acelerar esse processo, encarecendo a produção e tornando a economia americana crescentemente menos produtiva.
Não se quer aqui ser negativo. Os EUA seguem sendo uma máquina de produtividade ainda sem igual. Em diversas frentes os chineses ainda não conseguem competir com os americanos, mas não adianta olhar o retrato favorável se o filme caminha para um final melancólico.
A chave para mudar isso é uma mudança significativa na base da ciência e da educação americanas. Isso não é apenas culpa de Trump, mas do Partido Republicano que seguidamente ao longo das últimas décadas tem trabalhado por corte de fundos nessas áreas. É uma visão ideológica que penaliza enormemente a economia americana no longo prazo. Mas como não parece haver nenhum sinal de mudança nesse sentido, os EUA correm o risco de se tornar um país comum, em que pode liderar em várias frentes, mas ficará para trás em várias outras. O significado geopolítico disso ainda será testado nos próximos anos, com o distanciamento entre China e EUA levando a um mundo cada vez mais bipolar.