(mrPliskin/iStockphoto)
Colunista
Publicado em 31 de março de 2025 às 06h00.
O bom uso do vernáculo é um valor que precisa ser cultuado. O idioma de um povo constitui um dos aspectos cruciais de sua identidade.
Isso não significa defender uma linguagem rebuscada e pedante, tampouco diz respeito a uma repulsa a estrangeirismos. Ao contrário. Sabe-se que a língua de um país é viva, está sempre em desenvolvimento, nela cabem todas as múltiplas microculturas e regionalismos, e que saber se comunicar de forma clara e assertiva utilizando esse sistema único de palavras e significados deve ser o objetivo.
O bom uso do idioma, por alguma razão, tem sido negligenciado nos últimos tempos. Isso é grave. Dizem que Confúcio, pensador chinês, já afirmava, num passado bastante distante, que se as pessoas utilizam mal a sua linguagem, perdem sua liberdade.
Tudo indica que nossa liberdade, também por esse motivo, encontra-se em perigo. Há ofensas à nossa linguagem, vindas de diversas frentes.
Hayek cunhou a expressão weasel words (palavras doninhas). Doninhas são animais da família dos furões, capazes de sugar o conteúdo de um ovo sem que se perceba do lado de fora, ou seja, sem ser possível notar que ele ficou vazio. As “palavras doninhas” seriam aquelas que, atreladas a outras, em uma expressão, esvaziam seu sentido.
Em especial, incomodava a Hayek o uso abusivo da palavra social, escoando o nobre sentido de outras. Ele mencionava, a título de exemplo, os casos de justiça social, direitos sociais, economia social de mercado. Haveria, em sua concepção, uma guerra intelectual subjacente ao emprego dessas expressões, em prejuízo da liberdade.
Há também uma outra expressão de ataque às palavras em curso. Trata-se do uso exaustivo de algumas delas, como parte de uma agenda ideológica, desgastando seu significado original. Os exemplos pululam nas mídias em geral: potente, lugar, apropriação, empoderamento, narcisismo, pertencimento são exemplos do uso explicitamente político de uma palavra. Deteriora-se o conteúdo das palavras e elas se instrumentalizam em função de um projeto de poder político.
Nesse cenário, empregos tradicionais de certas palavras, historicamente utilizadas desatreladas de algum propósito político, passam a chamar a atenção e convidam a uma reavaliação de seu uso. Se o desenvolvimento do idioma revela uma fase de associação de conteúdos de palavras a agendas ideológicas, recomenda-se, também, a revisão de emprego histórico de algumas delas, amplamente utilizadas sem esse objetivo.
Sugere-se, a propósito, que se evite utilizar Corte para se referir a tribunal.
E que tal preferir pagador de tributos a contribuinte?
Ao invés de dizermos administrado, devemos escolher cidadão.
E optar por empresa, ao invés de regulado.
Também não faz sentido escrever Estado com Inicial Maiúscula e indivíduo com inicial minúscula.
Nesses casos, e no contexto linguístico atual, que instrumentaliza as palavras para objetivos políticos, é bom reconhecer que seus empregos históricos não são fiéis à realidade que buscam descrever. Convém retomar o culto ao bom uso da linguagem, o que significa livrá-la de carga ideológica e preservá-la como o fundamental meio de comunicação que ela é.