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Endividamento, inflação e juros: de quem é a culpa?

O retorno das medidas de estímulo ao consumo nos trouxe ao sobreaquecimento da economia

Nota de real, reias, 200 reais, 100 reais, 50 reais, dinheiro, inflação, invetimento, juros, moeda

Foto: Leandro Fonseca
Data: 04/02/2025 (Leandro Fonseca/Exame)

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Publicado em 1 de abril de 2025 às 19h39.

Nas últimas semanas fomos assoberbados por notícias econômicas, aparentemente contraditórias. Por um lado, o presidente da República reclama do “pilantra” que aumentou o preço do ovo, o vice-presidente sugere “retirar alimentos e energia” das medidas de inflação e a área econômica comemora o “Pibão” de 2024. Por outro, o ministro da Fazenda avalia que o a inflação está “dentro da normalidade para o Plano Real”, o governo federal anuncia a isenção do Imposto de Renda para pessoas físicas que recebem até R$ 5 mil ao mês e a ministra do Planejamento fala sobre um “ajuste fiscal robusto”. Em meio aos desencontros, o Banco Central, sob nova direção desde janeiro deste ano, aumenta os juros, enquanto o ministro da Fazenda culpa o ex-presidente da autoridade monetária pela desaceleração da economia. Afinal, o que está acontecendo? E de quem é a culpa?

Desde o último ciclo eleitoral, assistimos ao ressurgimento do Estado como indutor do processo econômico. O retorno das conhecidas medidas de estímulo ao consumo das famílias, à construção de obras públicas e de crédito, sem a contrapartida das reformas microeconômicas e da sustentabilidade fiscal, nos trouxe ao sobreaquecimento da economia.

Desde 2023 vivemos uma epidemia de gasto público. A dívida pública como proporção do PIB saiu de 71,7% do PIB em 2022 para 76,1% em 2024, injetando mais de R$ 2 trilhões na economia. Com impulso fiscal, o país acumulou crescimento de 6,7% de 2022 a 2024, levando a um aumento de 15,4% no aumento do rendimento médio das famílias, descontada a inflação. Em contrapartida, a produtividade cresceu apenas 2,2% no mesmo período.

O descompasso entre o crescimento da renda e da produtividade reflete no aumento da inflação. De janeiro de 2023 a fevereiro de 2025, o nível de preços, medido pelo IPCA, acumula alta de 11,3%. Com as contas públicas descontroladas e com a economia avançando acima do potencial, crescem os déficits na balança comercial e no balanço de pagamentos, que pressionam a desvalorização do real perante o dólar. A taxa de câmbio saiu de R$ 5,28, em dezembro de 2022, para R$ 6,18, em dezembro de 2024.

A depreciação cambial gera mais pressão sobre a inflação, especialmente em alimentos e energia. Com preços de commodities definidos no mercado internacional, quanto mais desvalorizado o real, mais caro é o custo de aquisição. De dezembro de 2022 a dezembro de 2024, o índice de commodities do Banco Central registrou alta de 4,9% em dólares, enquanto o crescimento em reais foi de 22,1%.

Com contas públicas em déficit crescente, economia sobreaquecida, inflação galopante e com a moeda doméstica em desvalorização, não resta alternativa à autoridade monetária que não seja aumentar a taxa básica de juros, independentemente de quem indicou o presidente do Banco Central. A política monetária, contudo, não é suficiente para mitigar tantos desequilíbrios. O Banco Central precisa de uma política fiscal que não acelere a atividade econômica.

Enquanto a política monetária tenta esfriar a atividade e conter os danos, a política econômica do governo é jogar mais lenha na fogueira, estimulando a economia. O crédito consignado facilitado aos trabalhadores da iniciativa privada e a isenção do Imposto de Renda pessoal física a aproximadamente 82% da população assalariada são novos estímulos ao consumo, via crédito e renda, e aumentarão o custo de manter a inflação.

E o “ajuste fiscal robusto”? Esse fica para 2027, para o próximo governo. Sem equilíbrio das contas públicas, a política monetária faz o papel de “secar gelo” e a economia é conduzida para um novo equilíbrio, no longo prazo, com níveis maiores de inflação e de juros.

E de quem é a culpa? A culpa é da escolha de política econômica. Enquanto mantivermos o Estado como indutor do processo de crescimento econômico colheremos mais inflação, mais juros e mais endividamento público. Mas essa conta fica para nós, brasileiros, pagarmos em 2027.

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