COP30 - Belem - PA - Brasil - ONU - Bandeira Foto: Leandro Fonseca Data: 19/11/2025 (Leandro Fonseca /Exame)
Autor do livro "Você em Ação"
Publicado em 22 de novembro de 2025 às 08h01.
Em novembro de 2025, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), realizada em Belém, representou um ponto de inflexão decisivo na agenda climática global.
Mais do que um palco diplomático, a COP 30 emergiu como catalisadora de ambição econômica, justiça social e transformação sistêmica, oferecendo ao mundo uma oportunidade concreta de alinhar sustentabilidade, desenvolvimento humano e inovação.
Um relatório conjunto da OCDE e do PNUD, apresentado no contexto da COP 30, evidencia que metas climáticas mais ambiciosas (NDCs reforçadas) não são apenas um custo, mas um acelerador de desenvolvimento: segundo o estudo, elas podem impulsionar o PIB global em cerca de 3% até 2050 e até 13% até 2100, se bem desenhadas e implementadas.
Esse número não é simbólico: representa trilhões em valor agregado à economia global e reflete por que a ação climática ambiciosa é, ao mesmo tempo, uma necessidade ética e uma oportunidade de investimento estratégica.
A WWF Brasil reporta que, durante a COP 30, foi anunciada uma coalizão de financiadores para o clima e a saúde com US$ 300 milhões destinados a ações integradas que tratam simultaneamente das causas da mudança climática e dos impactos sobre a saúde humana.
Tal investimento é emblemático: reconhece que clima e saúde estão intrinsecamente ligados e que para proteger o planeta, precisamos proteger as pessoas, especialmente as mais vulneráveis.
A COP 30 também foi palco para o lançamento da iniciativa do PNUMA chamada Food Waste Breakthrough, que visa reduzir pela metade o desperdício global de alimentos até 2030 e cortar até 7% das emissões de metano relacionadas ao setor.
Considerando que mais de 1 bilhão de toneladas de alimento são desperdiçadas por ano no mundo (segundo a PNUMA), essa iniciativa pode gerar um impacto ambiental e social profundo, ao mesmo tempo em que fortalece sistemas alimentares mais justos e eficientes.
A própria estrutura da COP 30 foi organizada para ser um exemplo de sustentabilidade: a conferência aderiu à norma internacional ISO 20121, criada para eventos sustentáveis, e adotou práticas de doação de alimentos excedentes (via SESC Mesa Brasil), menus inclusivos (vegetarianos, sem lactose, etc.) e priorização de mão de obra local de Belém.
Isso sugere um legado além das negociações: a COP 30 quer ser modelo para futuras organizações globais, demonstrando que grandes encontros podem (e devem) deixar pegadas positivas sociais, ambientais e econômicas.
A participação indígena na COP 30 foi histórica: segundo o boletim da WWF, milhares de representantes de povos originários do Brasil e de outros países estiveram presentes no evento, reforçando a importância de garantir voz àqueles mais afetados pelas mudanças climáticas.
Além disso, o Instituto Ethos lançou a iniciativa Impacta COP30 Além do Clima, que articula empresas, governos e sociedade civil para promover integridade socioambiental, direitos humanos e justiça nos compromissos climáticos.
Essa abordagem sistêmica, que conecta clima, desigualdade e governança, eleva a COP 30 a algo mais profundo que negociações técnico-ambientais: trata-se de uma convocação para reinventar modelos de desenvolvimento.
Nem tudo foi consensual: um dos pontos mais delicados nas negociações foi a Meta Global de Adaptação (GGA), cuja formalização enfrentou impasses diplomáticos.
A adaptação é tão crucial quanto a mitigação: sem fortalecer a resiliência das comunidades vulneráveis, os impactos das mudanças climáticas continuarão a se concentrar onde menos há recursos para enfrentá-los.
Para os profissionais de Recursos Humanos, a COP 30 representa mais que um evento geopolítico é uma janela estratégica para repensar o papel das pessoas no coração das organizações e da transição para uma economia de baixo carbono. Abaixo, alguns impactos e oportunidades concretas:
No boletim matinal da COP 30, foi anunciada a Iniciativa Global sobre Empregos e Capacitação para a Nova Economia.
O RH precisará liderar a requalificação (reskilling) e a capacitação (upskilling) dos colaboradores para as “indústrias do futuro”: energia renovável, tecnologia verde, agricultura regenerativa, economia circular.
Haverá demanda por profissionais em funções que até então eram marginais ou inexistentes nas empresas tradicionais, por exemplo, gestores de carbono, analistas de ESG, designers de processos sustentáveis, especialistas em logística regenerativa.
O compromisso da COP 30 com igualdade étnico-racial (via ODS 18, adotado voluntariamente) reforça a necessidade de práticas de RH que promovam inclusão genuína.
Políticas de diversidade podem alinhar-se aos valores climáticos: apoiar comunidades indígenas, negros ou populações vulneráveis tanto internamente (no recrutamento, promoção, cultura organizacional) quanto externamente (por meio de parcerias e programas sociais).
O RH pode impulsionar a responsabilidade social corporativa (RSC) de forma mais estratégica, integrando metas climáticas com ações sociais, reforçando a credibilidade e o compromisso da empresa.
A COP 30 reforça a conexão entre clima e saúde, vulnerabilidades sociais e ambientais vêm juntas.
RH pode construir programas de bem-estar climático: educar colaboradores sobre riscos climáticos, apoiar a saúde mental ligada a eventos extremos, criar políticas internas de adaptação (como teletrabalho em períodos de crise climática, seguro, planos de contingência).
Investir em saúde ocupacional alinhada aos riscos emergentes do clima, por exemplo, condições de trabalho em regiões vulneráveis a desastres naturais, calor extremo, inundação, etc.
A iniciativa Impacta COP30 destaca “integridade socioambiental” como valor central para empresas.
RH, em conjunto com Compliance e ESG, pode reforçar a cultura de integridade: treinamentos, códigos de ética, métricas de desempenho ligadas à sustentabilidade, integridade nas cadeias produtivas.
Promover a transparência e prestação de contas interna: mecanismos para que os colaboradores participem da construção da agenda climática da empresa, contribuindo com ideias, feedback e engajamento.
A COP 30 tem um forte apelo simbólico: sediada na Amazônia, traz a beleza e a urgência de preservação ambiental, associada a justiça social e novas ambições globais.
RH pode usar esse momento para reforçar o propósito da organização, alinhando valores corporativos com a agenda climática mundial. Isso fortalece o employer branding, atraindo talentos que buscam significado além do lucro.
Programas de engajamento: campanhas internas, voluntariado climático, hackathons verdes, parcerias com ONGs para tornar os colaboradores agentes ativos da transição.
A COP 30 não foi apenas mais uma conferência climática: ela simbolizou uma mudança de paradigma. Ao unir ambição econômica (via NDCs reforçadas), inclusão social (ODS de igualdade racial), saúde, integridade e inovação, o evento abriu caminho para uma visão interdisciplinar da crise climática e do seu enfrentamento.
Para o mundo, os impactos tangíveis são potenciais transformações no crescimento econômico, na redução de emissões, no desperdício de alimentos e na justiça ambiental.
Para as empresas, especialmente para os departamentos de RH, a COP 30 representou uma chamada estratégica para repensar o capital humano, realocando esforços para preparar os colaboradores para a nova economia verde, reforçando valores de integridade e propósito, e adotando uma visão mais ampla de bem-estar.
Em resumo, a COP 30 é menos sobre promessas e mais sobre compromisso e cabe ao RH transformar esse compromisso em ação concreta: por meio das pessoas, das práticas e da cultura organizacional.
É uma oportunidade única para tornar a sustentabilidade parte central da marca empregadora, para atrair e reter talentos, e para posicionar a empresa como protagonista na construção de um futuro justo, resiliente e próspero.