Carl Sagan: cientista acreditava que consequências da tecnologia eram imprevisíveis (CBS Photo Archive / Colaborador/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 6 de novembro de 2025 às 10h44.
Última atualização em 6 de novembro de 2025 às 10h44.
"A extinção é a regra. A sobrevivência é a exceção." Essa é, talvez, a frase que melhor sintetiza as teorias do cientista Carl Sagan sobre a humanidade. Para ele, o risco de uma extinção da espécie humana causada por suas próprias ações era elevado — e vinha de dois lados.
Um deles tem origem na herança biológica primitiva da humanidade; o outro, nas consequências imprevisíveis do avanço tecnológico.
Em um episódio da série Cosmos, “Who Speaks for Earth?”, Sagan descreveu o “perigoso fardo evolutivo” que a humanidade carrega: agressividade, submissão a líderes autoritários e hostilidade a outros grupos. Ao mesmo tempo, destacou a capacidade humana de compaixão, curiosidade e raciocínio científico.
A verdadeira questão, segundo ele, era qual desses aspectos prevaleceria no futuro.
Nos anos 1980, Carl Sagan se destacou como um dos principais articuladores da teoria do inverno nuclear.
Ao lado de James Pollack, Brian Toon, Tom Ackerman e Rich Turco, desenvolveu modelos que mostravam como mesmo uma guerra nuclear limitada poderia causar queda abrupta nas temperaturas globais — entre 15 ºC e 25 ºC — e provocar uma era de escuridão, fome e colapso ecológico.
A teoria foi apresentada ao público em outubro de 1983, em artigo de capa da revista Parade, e consolidada no estudo TTAPS, publicado na revista Science. "A possibilidade de extinção de Homo sapiens não pode ser descartada", disse ele.
Para ele, o impacto mais grave não seriam os mortos imediatos, mas a eliminação de todas as futuras gerações. "Se formos obrigados a calcular a extinção em termos numéricos, certamente incluirei o número de pessoas das gerações futuras que não nascerão. Uma guerra nuclear coloca em risco todos os nossos descendentes, enquanto houver seres humanos."
Sagan relacionou sua preocupação à ausência de civilizações extraterrestres detectáveis — o chamado paradoxo de Fermi. Ele acreditava que isso indicava uma tendência comum à autodestruição entre espécies tecnológicas.
"Nossas poses, nossa imaginada autoimportância, a ilusão de que ocupamos uma posição privilegiada no Universo, são desafiadas por este ponto de luz pálida. Nosso planeta é um grão de areia solitário na imensidão escura do cosmos. Em nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há indício de que virá ajuda de outro lugar para nos salvar de nós mesmos."
A humanidade, portanto, viveria um "tempo de perigos", em que sua própria capacidade de destruição supera sua habilidade de autocontrole.
Para Sagan, só haveria uma saída: cultivar uma perspectiva cósmica.
Observar a Terra como um “pálido ponto azul” no espaço — expressão que usaria anos depois em seu livro homônimo — revelaria o absurdo de divisões nacionais e fanatismos. Sem essa visão ampla, temia que o "instinto reptiliano" acabasse por guiar decisões catastróficas.
Seu ativismo encontrou resistência.
Ao usar sua fama para alertar o público, enfrentou críticas de cientistas e políticos, especialmente defensores da Iniciativa de Defesa Estratégica, o programa nuclear conhecido como “Star Wars”. O embate culminou em debates públicos com o físico Edward Teller e marcou a politização da ciência em temas globais.
Ainda assim, sua influência atravessou fronteiras: o papa João Paulo II o convidou para debater o inverno nuclear, e Mikhail Gorbachev o citou como um dos responsáveis pela reavaliação soviética da corrida armamentista.
Quarenta anos depois, o risco de guerra nuclear diminuiu, mas não desapareceu.
Estudos recentes do próprio Brian Toon avaliam os impactos de conflitos nucleares regionais, como entre Índia e Paquistão, com potenciais globais semelhantes aos previstos por Sagan.
As táticas usadas para desacreditar o alerta sobre o inverno nuclear — como campanhas coordenadas para atacar o mensageiro — se repetem no debate sobre mudanças climáticas. Assim como Sagan, cientistas do clima enfrentam dilemas entre comunicar riscos extremos ou suavizar as projeções para evitar rejeição pública.
A frase de Sagan, dita em 1994 ao ver a Terra retratada pela sonda Voyager 1, sintetiza seu apelo: “Temos a responsabilidade de agir com mais gentileza uns com os outros e preservar o pálido ponto azul — o único lar que conhecemos”.