Brasil

Chegou a vez da reforma administrativa

OPINIÃO: Se formos capazes de reduzir a carga tributária e aumentar a eficiência do gasto público, o governo recuperará a sua capacidade de investimento e poderá fornecer melhores serviços públicos à população

Reforma: A verdade é que ninguém está satisfeito com o atual modelo de organização do Estado (Jefferson Rudy/Agência Senado/Flickr)

Reforma: A verdade é que ninguém está satisfeito com o atual modelo de organização do Estado (Jefferson Rudy/Agência Senado/Flickr)

Tadeu Barros
Tadeu Barros

Colunista

Publicado em 30 de agosto de 2023 às 17h39.

Já é consenso que a cultura de tomada de decisão a partir de evidências torna o setor público brasileiro muito mais eficiente. Esse conceito, entretanto, vem demorando décadas para que seja introjetado no DNA e cultura da administração pública no Brasil.

Qualquer mudança gera temor e desconforto, mas se bem conduzida pode trazer impactos positivos sem precedentes. Alguns exemplos recentes nos ajudam a embasar essa tese. Os três Poderes da República estão convencidos que o país precisa de reformas estruturantes com o objetivo de tornar o Estado mais moderno e eficaz. São pautas que atuem na essência dos problemas mais latentes da população.

Neste caso, não temos como não pensar nas reformas da previdência, tributária e administrativa. O Brasil deu uma demonstração de maturidade com a aprovação nas novas regras previdenciárias em 2019. Seus efeitos ainda devem ser sentidos nos próximos anos, mas a maioria da população entendeu a necessidade de alterar regras obsoletas, como idade mínima para a aposentadoria, tempo de contribuição, cálculo do benefício e regras de transição específicas.

Já o arcabouço fiscal está prestes a ser sancionado pelo governo federal e a reforma tributária está na “marca do pênalti”. Foi aprovada pela Câmara dos Deputados e deverá ser votada pelo Senado em outubro, na previsão do relator senador Eduardo Braga (MDB-AM). Uma proposta que carece de ajustes e monitoramento sistemático de sua regulamentação— e que podem e DEVEM ser corrigidas pelo Congresso Nacional —, surge com grande janela de oportunidade para simplificar e modernizar o sistema de impostos do país, corrigindo disparidades e tornando-o mais justo e eficiente. Em outras palavras, vai melhorar o ambiente de negócios e destravar a economia do Brasil.

A revista britânica The Economist publicou no início de agosto um artigo intitulado “Investidores estão cada vez mais otimistas com a economia do Brasil”. Outro sinal dessa tendência é a recente elevação na nota de crédito do Brasil pela agência Fitch Brasil de BB- para BB, com perspectiva estável. Este ambiente favorável é o momento propício para avançarmos em outra agenda fundamental para o futuro do país: uma reforma administrativa que de fato modernize o setor público brasileiro. Só ela pode aumentar a produtividade, trazer de fato a meritocracia para aqueles servidores que entregam resultados, além de diminuir a dívida pública.

A verdade é que ninguém está satisfeito com o atual modelo de organização do Estado. Nem os servidores, sejam federais, estaduais ou municipais, e nem a população, que clama por melhores serviços públicos. Em um cenário de altos salários, progressão automática e um conjunto de privilégios, quais os reais incentivos dados para que os servidores públicos façam um bom trabalho? Precisamos garantir que eles não fiquem sujeitos às flutuações políticas e que tenham incentivos baseados em critérios claros e justos.

Um estudo recente do Centro de Liderança Pública mostra a disparidade salarial é uma realidade mesmo dentro do serviço público do país. Cerca de 70% dos profissionais do setor público ganham até R$ 5 mil e menos de 1% ganha mais de R$ 27 mil. Hoje, o máximo que um servidor pode receber é o valor recebido por um ministro do Supremo Tribunal Federal, atualmente em cerca de R$ 42 mil. E uma pequena parcela privilegiada de 25,5 mil servidores — dentro de um total de 11 milhões de funcionários — recebem acima do teto constitucional por meio dos já conhecidos “penduricalhos”.

É urgente a implementação de mecanismos mais meritocráticos no serviço público, com o servidor que progride na carreira o fazendo com base em avaliações de desempenho bem desenhadas e efetivas.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), sinalizou que pretende priorizar a reforma administrativa neste segundo semestre, mesmo sem o apoio do governo. A PEC 32/2020 que tramita na casa pode ser o pontapé inicial para avançarmos com a pauta, mas o texto carece de melhorias importantes, como a inclusão de magistrados e membros de poder na vedação de benefícios e a retirada de "jabutis" referentes à segurança pública. Esses temas serão debatidos a fundo pela Frente Parlamentar Mista para o fortalecimento da gestão pública, presidida pelo deputado federal Duarte Jr. (PSB-MA) e lançada há uma semana durante o evento anual dos Rankings de Competitividade dos Estados e dos Municípios 2023 do CLP.

As responsabilidades social e fiscal andam juntas. É por isso que a reforma administrativa nunca foi tão importante para a reforma tributária e vice-versa. De nada adianta avançar num front e não no outro. Se formos capazes de reduzir a carga tributária e aumentar a eficiência do gasto público, o governo recuperará a sua capacidade de investimento e poderá fornecer melhores serviços públicos à população.

Se tem uma expressão que soa como música nos ouvidos de entusiastas de um setor público moderno é “colocar o bloco na rua”.  O governo federal e o Congresso Nacional têm a oportunidade de dar um passo importante capaz de iniciar a construção de uma gestão pública mais moderna, eficaz e que promova transformação social.

Acompanhe tudo sobre:Reforma Administrativa

Mais de Brasil

Gilmar Mendes retira discussão sobre mineração em terras indígenas de conciliação do marco temporal

Governo quer aumentar pena máxima de 4 para 6 anos de prisão a quem recebe ou vende celular roubado

Alexandre de Moraes arquiva investigação contra Bolsonaro sobre fraude em cartão de vacina

PEC da Segurança será enviada ao Congresso nas próximas semanas, diz Sarrubbo