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Tarifas de Trump vão mudar preço do etanol no Brasil? Entenda os impactos

Presidente americano anunciará tarifas recíprocas nesta quarta e citou o combustível como exemplo de prejuízo para os EUA

Cuba, Trinidad, Valle de los Ingenios, Sugar cane field. (Getty/Getty Images)

Cuba, Trinidad, Valle de los Ingenios, Sugar cane field. (Getty/Getty Images)

Publicado em 2 de abril de 2025 às 06h01.

Última atualização em 2 de abril de 2025 às 10h15.

Caso o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, imponha tarifas sobre o etanol brasileiro, isso não deve causar grandes variações nos preços para o consumidor daqui, avaliam especialistas e empresários do setor ouvidos pela EXAME.

A principal razão disso é que o Brasil exporta um percentual pequeno de sua produção total. O país fabrica cerca de 38 bilhões de litros por ano e vende para os EUA algo entre 400 e 500 milhões de litros, pouco mais de 1% do total.

"O Brasil exporta entre 400 e 500 milhões de litros para os EUA, mas esse etanol não é destinado diretamente ao mercado norte-americano. Ele é utilizado como matéria-prima para a fabricação de outros produtos, que, por sua vez, são reexportados. Portanto, acredito que essa tarifa não afetará substancialmente o preço do etanol", afirma Bruno Wanderley, economista da Datagro Consultoria.

Segundo a Datagro, desde 2021, as importações brasileiras de etanol dos EUA caíram para 247 milhões de litros por ano, enquanto as exportações do Brasil para os EUA ficaram em 309 milhões de litros anuais.

No Brasil, o etanol de cana representa 78% da oferta total de etanol no país, enquanto o etanol de milho responde por 22%.

Com a expansão da produção americana e preços mais competitivos, os EUA aumentaram suas exportações globais em 34,8% em 2024, enquanto o Brasil reduziu suas vendas externas em 25%, impactado pelos altos custos do etanol de cana e pela maior proporção de cana destinada à produção de açúcar, o que alterou o mix de produção nas usinas.

No ano passado, os embarques de etanol americano cresceram pelo 15º ano consecutivo, atingindo um valor recorde de US$ 7,5 bilhões. Nos EUA, o etanol de milho segue sendo o principal biocombustível exportado.

O economista também destaca que, para a safra 2025/2026, a produção de cana no Brasil está estimada em 42,3 milhões de toneladas, ligeiramente superior à inicialmente prevista. Se não houver irregularidades climáticas ou seu impacto for mínimo nas plantações, os preços do etanol não devem sofrer alterações.

"Se não houver problemas de qualidade da cana, as usinas conseguirão maximizar a produção de açúcar. Com isso, o mercado interno de etanol se tornará mais apertado, e qualquer etanol que eventualmente deixe de ser exportado será facilmente absorvido no mercado interno", explica Wanderley.

Na prática, isso significa que, com maior produção de açúcar, a quantidade de etanol disponível para consumo interno será reduzida, já que o biocombustível também é derivado da cana-de-açúcar. Nesse cenário, caso o etanol deixe de ser exportado, ele será rapidamente absorvido pelo mercado interno.

Segundo Trump, os EUA aplicam uma taxa de 2,5% sobre a importação de etanol do Brasil, enquanto o país cobra uma tarifa de 18% sobre o etanol importado dos EUA.

Exportação de etanol do Brasil

Na avaliação de José Guilherme Nogueira, presidente da Orplana, entidade que representa 35 empresas produtoras de cana-de-açúcar, embora as tarifas impostas pelo presidente dos EUA não afetem diretamente os preços internos, o impacto seria imediato nas exportações do etanol brasileiro, que é mais competitivo do que o biocombustível norte-americano, baseado em milho.

"Ele é competitivo tanto em preço quanto em questões ambientais, e é por isso que o mercado brasileiro é vantajoso. No entanto, caso haja equivalência nas taxações nos Estados Unidos, a competitividade do etanol brasileiro pode ser prejudicada, forçando o Brasil a redirecionar seus mercados de exportação", diz Nogueira.

Em relação à postura de Trump, o presidente da Orplana acredita que, devido ao estilo de negociação do presidente dos EUA, é possível que ele busque algo em troca do Brasil para evitar a aplicação das tarifas.

Nogueira lembra que, no passado, o setor já abriu mão de algumas vantagens para facilitar acordos com os Estados Unidos.

"O setor de açúcar, por exemplo, demonstrou que não teria problemas em liberar as importações sem tarifas sobre o açúcar", afirma.

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