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Concessões florestais avançam como motor de economia com conservação

Com 453 mil hectares distribuídos em quatro unidades de manejo florestal, a concessão da Jatuarana foi integralmente arrematada

Publicado em 10 de julho de 2025 às 18h09.

Última atualização em 10 de julho de 2025 às 18h23.

A conservação florestal acaba de viver um marco histórico: pela primeira vez no país a concessão de uma floresta pública se deu por meio de leilão na Bolsa de Valores do Brasil — a B3. A batida de martelo aconteceu em maio e teve como objeto a concessão da Floresta Nacional (Flona) do Jatuarana, no Amazonas. Mais do que uma inovação no formato; o evento colocou em evidência o amadurecimento do mecanismo de concessões florestais como política pública estratégica, com poder de aliar benefícios ambientais, geração de renda e valorização dos territórios amazônicos.

Com 453 mil hectares distribuídos em quatro unidades de manejo florestal, a concessão da Jatuarana foi integralmente arrematada. A expectativa de arrecadação anual soma R$ 32,6 milhões, com geração de cerca de 2,8 mil empregos diretos e indiretos. O modelo adotado prevê o uso sustentável de madeira e produtos não madeireiros, além de estabelecer compromissos sociais claros, como a destinação integral dos chamados encargos acessórios a ações de pesquisa, proteção florestal e desenvolvimento de comunidades locais e indígenas.

A operação — emblemática por si só — ganha estatura também por ser a pedra fundamental de uma ambição maior: a de ampliar a área sob concessão florestal de 1,3 milhão para 20 milhões de hectares até 2030. Trata-se de um passo decisivo para frear o desmatamento ilegal e promover uma economia de floresta em pé, com geração de riqueza, justiça social e estabilidade climática.

Os dados respaldam essa estratégia. Analises recentes do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), mostra que, com 20 milhões de hectares manejados, o Brasil poderia produzir cerca de 10 milhões de metros cúbicos de madeira legal — o equivalente à totalidade da produção de madeira na Amazônia. De outra forma, essa produção poderia suprir a extração de madeira ilegal, que hoje corresponde a 35% da área total de exploração madeireira naquele bioma, segundo dados da Rede Simex de 2024. Os benefícios não param aí. Projeções do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) indicam que essa expansão representaria uma arrecadação anual de R$ 1,16 bilhão — recurso que, por lei, retorna para a conservação e o fortalecimento da governança ambiental em municípios, estados e União.

Localmente, estima-se que a expansão das concessões tem potencial para gerar 36 mil empregos diretos e 72 mil indiretos, com contratação local, valorização de saberes tradicionais e fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis. A política prevê ainda investimentos das concessionárias em infraestrutura, bens e serviços nas comunidades, promovendo dignidade e cidadania.

Para atingir a meta de 20 milhões de hectares, no entanto, será necessário planejamento multianual, cronogramas transparentes de editais, ampliação de linhas de crédito verde e monetização dos serviços ecossistêmicos, como sequestro de carbono e proteção da biodiversidade. O momento favorece esse salto. O mercado demonstra apetite por ativos sustentáveis; a madeira legal certificada está valorizada; e a comunidade internacional mostra reconhecimento frente a políticas ambientais robustas.

O leilão da Flona Jatuarana foi o início promissor de uma nova fase em que o Brasil parece disposto a tratar a floresta como ativo produtivo estratégico e não como um passivo a ser explorado. Foi também prenúncio de um segundo passo necessário — a ampliação do uso de concessões para fins de restauração florestal, o que permitiria recuperar áreas degradadas, gerar créditos de carbono e criar valor ambiental positivo para investidores e comunidades. Fazer da floresta um instrumento de desenvolvimento sustentável é possível — e mais urgente do que nunca.

Marina Piatto é diretora-executiva do Imaflora

Leonardo Sobral é diretor de Florestas e Restauração do Imaflora

Renato Rosenberg é diretor de Concessões Florestais e Monitoramento do Serviço Florestal Brasileiro

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