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Na China, a nova ordem é produzir menos para preços subirem: entenda a política 'anti-involução'

Impactos para a siderurgia brasileira são esperados; China traz aço para o país a preço abaixo do mercado

O governo chinês está adotando uma estratégia de subsídios "leapfrogging", ou seja, incentivando setores da economia que podem dar saltos tecnológicos, como o setor de renováveis, incluindo carros elétricos e energia solar (Getty Images/Getty Images)

O governo chinês está adotando uma estratégia de subsídios "leapfrogging", ou seja, incentivando setores da economia que podem dar saltos tecnológicos, como o setor de renováveis, incluindo carros elétricos e energia solar (Getty Images/Getty Images)

Juliana Alves
Juliana Alves

Repórter de mercados

Publicado em 30 de agosto de 2025 às 09h39.

A China enfrenta um grande desafio econômico: a superprodução. Com o aumento da oferta de bens, os preços caem e as margens de lucro das empresas ficam cada vez mais apertadas. Esse excesso de produção gerou um cenário de capacidade ociosa. Em resposta, o governo chinês implementou uma série de medidas, conhecida como “política anti-involução”, para evitar que o país mergulhe em uma deflação.

Porém, enquanto a China busca resolver seu problema interno, um efeito colateral começa a se espalhar para o outro lado do planeta. Se a produção chinesa diminuir, o Brasil, grande fornecedor de matérias-primas para o país asiático, também será afetado.

Em julho, o Comitê Central de Assuntos Econômicos e Financeiros da China, sob a liderança de Xi Jinping, orientou as empresas a reprimir a competição predatória por preços, que tem afetado o setor automotivo — especialmente os carros elétricos —, a indústria solar e a siderurgia.

Uma das alternativas discutidas é o corte de subsídios do governo para empresas não rentáveis. A construção civil, por exemplo, tem enfrentado uma queda vertiginosa em vendas e preços, e os chineses estão pondo o pé no freio em relação a novos lançamentos imobiliários.

O economista e professor da FEA-USP, Gilmar Masiero, explica que o governo está direcionando incentivos para setores da economia com potencial de desenvolver tecnologias e que são, justamente, os mais impactados pela deflação.

“A ideia é conceder esse benefício apenas para as companhias mais rentáveis. Dessa forma, os players mais fracos devem sair do mercado, e as fortalecidos podem vender com preços mais elevados. O governo pode manter ou até aumentar os subsídios para algumas empresas que eles consideram estratégicas”, explica o economista e professor da FGV, Ricardo Hammoud.

Consumo chinês fraco

A queda do índice de preços ao produtor (PPI) em julho, de 3,6% comparado ao ano anterior, sinaliza uma pressão deflacionária crescente. E como os preços estão caindo, os chineses acabam freando o consumo, esperando as coisas ficarem ainda mais baratas.

A política tarifária de Donald Trump agravou esse desequilíbrio, deixando as empresas chinesas com dificuldades para escoar sua produção para o mercado norte-americano, que historicamente foi o maior consumidor dos produtos chineses.

Masiero, da FEA-USP, explica que, com a desaceleração de renda chinesa durante a pandemia, a população passou a poupar mais.

O governo chinês já vinha tentado estimular o consumo com expansão de crédito, por meio de subsídios a bancos, além de realizar grandes obras para aumentar o emprego. Mas, para Hammoud, ainda faltam reformas estruturais.

E o que o Brasil tem a ver com isso?

A China é, hoje, o principal destino das exportações brasileiras e também envia muito do que é produzido lá para o Brasil. A siderurgia, por exemplo, tem sido bastante impactada pela entrada de aço chinês no país, a preços mais baixos do que os praticados por aqui.

"A campanha 'anti-involução' gerou expectativas de cortes na produção em setores como o aço, alimentando o otimismo em diversas commodities, incluindo minério de ferro e aço", afirma um recente relatório da XP.

"No entanto, esforços anteriores para reduzir a capacidade siderúrgica tiveram sucesso limitado, e a retórica atual carece de implementação concreta, enquanto os governos locais permanecem hesitantes em impor fechamentos [de unidades produtivas] devido a preocupações com a arrecadação de impostos e o emprego", ressalvam os analistas.

De qualquer forma, a XP diz manter uma visão cautelosa sobre a demanda de ação e minério de ferro ao longo deste segundo semestre de 2025. E mantém a previsão de que minério no período fique entre US$ 95 e US$ 100.

 

 

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