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A CFO que gestou a fusão entre Petz e Cobasi – junto com seu terceiro filho

Com passagem pela Arezzo, onde liderou novos negócios, como a compra da Reserva, Aline Penna tem longa experiência em M&As; na Petz, o negócio transformacional ocorreu em paralelo com a maternidade

Penna, na sede da Petz: Executiva tocou M&As na Arezzo, como a compra da Reserva, antes de chegar à varejista pet (Leandro Fonseca /Exame)

Penna, na sede da Petz: Executiva tocou M&As na Arezzo, como a compra da Reserva, antes de chegar à varejista pet (Leandro Fonseca /Exame)

Natalia Viri
Natalia Viri

Editora do EXAME IN

Publicado em 30 de agosto de 2025 às 10h25.

No cargo de CFO da Petz desde outubro de 2021, Aline Penna foi peça-chave na fusão com a Cobasi. Participou das negociações, da análise das sinergias e vem tocando o intrincado rito da transação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Num longo namoro entre as empresas, o negócio quase foi fechado em setembro de 2023, mas bateu na trave. Parecia que não ia mais em frente, até que as conversas foram retomadas no começo de 2024.  Em abril daquele ano, quando os contratos finalmente foram assinados, Penna estava grávida de sete meses da sua terceira filha – e se manteve à frente de tudo, sem transformar a gestação em pauta.

“Era uma agenda intensa e fazíamos muitas reuniões por vídeo. Quando encontrei os executivos e sócios da Cobasi presencialmente, já no finzinho da gestação, eles tomaram um susto”, diz. “Eu não falei porque não fazia diferença e, no trabalho, isso não me definia.”

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A executiva – assim como esta repórter – não é afeita a ‘casos de superação’ e menos ainda ao conceito de ‘supermulher’. Mas topou abrir sua experiência para mostrar a possibilidade de escolher ter uma carreira próspera e demandante e, ao mesmo tempo, construir uma família grande – com todas as dores e delícias que isso implica.

“Era meu terceiro filho, eu já sabia como era. Tinha rede de apoio e sabia que era um momento crucial para a empresa”. A renúncia, nesse caso, foi trabalhar (bastante) pouco depois do parto, tocando os ajustes pós-fusão e a agenda concorrencial com a bebê ainda de colo e – como é usual em qualquer que seja a escolha envolvendo carreira e maternidade –, ouvindo críticas até de pessoas próximas.

“Não quero naturalizar, dizer que é assim que tem que ser. É sobre se conhecer e saber o que a gente quer e o que a gente topa. Eu sabia que era isso que eu queria e fazia sentido para mim”, afirmou, numa entrevista de mais de duas horas.

Penna ocupa um espaço que ainda é exceção para as mulheres. Uma pesquisa feita pelo Insper em parceria com a Assetz mostra que, em 2024, elas ocupavam apenas 18% das cadeiras de CFOs, considerando empresas de grande porte de capital fechado e aberto. Olhando apenas para o recorte de empresas listadas em bolsa, a diferença é ainda maior: além de Penna, apenas outras sete companhias das 81 que compõem o Ibovespa têm CFOs mulheres.

Do IB ao varejo

Formada em administração pela FGV, a executiva está acostumada a ser uma das poucas mulheres na sala, a trabalhar longas horas e a tocar processos de M&A. Ela iniciou a carreira no investment banking do HSBC, onde ficou por seis anos, assessorando diversas transações. Depois, foi para a área de investimentos proprietários do banco, participando diretamente de negócios como a compra de participação na Camil Alimentos.

Sua carreira de 12 anos no banco foi marcada ainda por longa passagem pela asset, uma das maiores com mandatos de ações para América Latina na época, cobrindo empresas de consumo e varejo. Foi nesse período que teve seus dois primeiros filhos.

Por lá, ajudou a construir posições relevantes em empresas de consumo: “Tínhamos 10% de Renner, Arezzo, Hering. Isso dava acesso direto aos CEOs”. O relacionamento com os executivos das empresas era próximo — e foi decisivo para sua guinada no mundo corporativo.

Questionadora, ela chamou atenção de Alexandre Birman, da Arezzo, que a convidou para liderar a área de relações com investidores. Em pouco tempo, assumiu também as áreas de estratégia, novos negócios e planejamento, conduzindo a primeira grande leva de M&As da empresa.

Por lá, tocou o projeto estratégico que ampliou a atuação da empresa, que tinha um share já relevante em sapatos femininos, para moda, roupa infantil, tênis e ESG. Liderou aquisições como a da Reserva e o licenciamento da Vans.

Nem tudo saiu como o previsto. A tentativa de compra da Hering terminou em frustração, quando o Grupo Soma atravessou a proposta com um valor de quase o dobro do que tinha sido oferecido pela Arezzo. “Tínhamos passado muito tempo trabalhando na oferta. Foi duro, mas a disciplina prevaleceu." (Como se sabe, hoje Arezzo e Soma estão juntos no Azzas.)

Da moda aos pets

Depois de seis anos na Arezzo, Penna queria consolidar sua jornada como CFO. E a Petz apareceu com a proposta certa. "Era uma CFO com um papel amplo — além do financeiro, tinha RI, estratégia, novos negócios." Ela nunca havia tocado áreas como o fiscal ou tesouraria, mas topou aprender.

(A paixão por animais também ajudou: além dos três filhos, Penna tem quatro cachorros, um passarinho e recentemente comprou dois esquilos da Mongólia para o filho mais velho. “Sempre gostei de casa cheia. Acho que é coisa de filha única”, brinca.)

Na época, a Petz havia acabado de abrir capital e era uma das queridinhas do mercado, com múltiplos elevados e apetite por crescimento. De novo, a agenda de M&A entrou em jogo: de cara, ela já tocou o fechamento da aquisição da Zee Dog, feita pouco antes da sua chegada. Depois comprou também a fabricante de tapetes higiênicos Petix, aprofundando a verticalização da varejista em direção à indústria.

Os tempos de juros baixos, no entanto, ficaram para trás e o segmento de pets passou por uma ressaca brava no pós-pandemia. A demanda caiu e a concorrência aumentou – e Penna precisou trocar o chip.

“Saímos da expansão para a eficiência, para o orçamento base zero. É claro que é um desafio, mas me deu um repertório bem mais completo. Saí de uma empresa com margens maiores, mais investimento em marketing, em branding, para uma indústria de margens mais apertadas. São competências complementares”, diz.

Hoje, além do seu trabalho como CFO na Petz, Penna também divide sua experiência no setor de consumo como conselheira de administração, da rede de decoração Tania Bulhões e da fabricante de roupas de cama Karsten, dona da marca Trussardi.

“Na época do primeiro convite, o Sergio [Zimerman, fundador e CEO da Petz], me perguntou: ‘conselho toma tempo, isso não vai tirar sua atenção daqui?’. Eu disse que não, que aquilo ia me tornar uma executiva melhor. No segundo convite, ele já nem questionou”.

O curso de formação de conselheiras do IBGC foi feito em paralelo com o nascimento da filha e a fusão da Cobasi. (A matrícula tinha sido feita em 2023, quando ela ainda acreditava que faria a maior parte das aulas na licença maternidade.)

Como equilibrar tantos pratinhos? Mais que uma aula de gestão de tempo, a lição é de gestão de expectativas e prioridades: "Não dá para fazer tudo. Tem sempre um pratinho caindo. Mas dá para escolher o que é essencial, se cercar de boas pessoas e pedir ajuda – isso eu faço isso o tempo todo."

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